3-10-2009A SÍNDROME DA RUA GRANDE
NORDESTE SANGRENTO
Correm os anos de 1800. Repetem-se as tragédias sertanejas. A passagem de século é marcada, novamente, pelo flagelo das secas e do cangaço. São ciclos de adversidades climáticas e terror imposto pelos foras da lei, solitários ou em bandos.
Tudo na base do olho por olho, dente por dente, como na Lei do Talião. É uma guerra sem tréguas no interior, onde impera a lei do mais forte, do matar ou morrer. Milícias volantes fazem a força policial, sempre atrelada ao coronelismo e chefetes políticos.
É animosidade por qualquer motivo, que não acaba mais, com o sangue, a maioria de inocentes, derramado em todo o interior nordestino, principalmente, nas pequenas vilas e arruados
Homens simples, trabalhadores, ou até pessoas de certas posses, se envolvem nas batalhas sem fim, lavando a honra da família ultrajada, ou levados ao crime movidos pela injustiça praticada contra eles pelos mais fortes, travestidos de paladinos da Lei.
Na guerra sem fronteiras entre conterrârenos,até padres se transformam em carrascos e homens de bem, de paz, em bandidos.É a luta sanguinária pela sobrevivência de cada clã.
TERRA DE BRAVOS
Na Bahia,o Governo acabara com Canudos e Antonio Conselheiro. No rastro de ódio, brutalidade e muito sangue. As pilhas de cadáveres emoribundos deixadas para traz jaziam como desculpas que era preciso extirpar o mal pela raíz, como se a bravura dos nativos e os ideais de seus líderes se dissipassem no tempo, perdidos na memória de uma Jovem Nação, que saira do julgo feroz do Império à procura de sua propria identidade.
Na Paraíba, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e, em menor escala, Rio Grande do Norte, isolados ou em bandos, jovens chefes de familia, a maioria vítimas da desigualdade social e da crueldade patriarcal, acobertada pelo poder público, aderiam, também ao submndo do crime, assaltando, violentando e matando inocentes ou simplesmente fazendo justiça com as próropias mãos, na vingança contra os seus desafetos.
Os grandes bandoleiros, homens do cangaço como Adolfo Rosa Meia Noite, Antonio Silvino, Jesuíno Brilhante, Liberato Cavalcanti de Carvalho Nóbrega e Lampião, como exemplos,
são frutos dessa chaga social.
Eles não chegaram a barbarizar em Caicó, apenas a simples citação de seus nomes aterrorizavam os locais que, nos idos de l840, foram sobressaltados com o bárbaro crime contra uma jovem senhora, Ana Freire, envenenada e asfixiada por suaspróprias mucamas a mando do próprio marido, o capitão Galdino. No desfecho do triste episódio, apenas os serviçais da fazenda foram punidos, com a pena de morte, e o mandante e poderoso oficial da guarda nacional escafedeu para sempre.
Mais de um século depois, a violência contra cidadãos de bem volta a se repetir, mas o sindicato do crime ressurge firme e forte nos anos 60 com a chegada de um delegado violento, cruel, ardiloso. Envolvido ou não em chacinas, ele cria o ambiente para tal.
Porque não é atoa que a sociedade, como um todo, condena o crime, mas planta a semente que o conduz.
Clima e ambientes criados, permissíveis, acobertados, repudiados. Uma sequência de crime brutais motivados por cobiças e vinganças, uma década de muito sangue, dor, comoção e medo. Restando contar e recolher seus mortos e enterrar os corpos.
POR QUÊ?
O outono brindara, à estação climática que se iniciava, o luar do sertão, a brisa noturna e a efervescência de julho e agosto aos que jovens que amavam os prazeres da vida e os Beattles e Rollings Stones e a turma brasileira da jovem guarda que era fan de Luiz Lua Gonzaga, o eterno Rei do Baião.
Passados apenas dois meses dos festejos religiosos, os embalos nas noites de sábados e domingos se repetem, um atrás do outro. Caicó, literalmente, é a cidade mais festeira do Estado.
Ir à festa da Rainha da Primavera, no último fim de semana de setembro, portando, é imperdível. Até porque, durante toda a semana, era só o que se falava nos encontros de amigos em qualquer parte da cidade, nos bares, nos papos de esquina, nos locais de lazer e de trabalho e nas salas de aula. A patota jovem em peso garantia presença, obrigatória, por sinal. E lá vamos nós, ora, qual a razão de perdê-la, bicho. A festa será uma brasa, mora!
Época convidativa, sem cirandas financeiras, de milagre brasileiro. Recessão e repressão, brabas, uma dualidade cruel, mas que se mandava para escanteio, aos moldes da Rua Bariri, do surpreendente becão Olavo.
O entardecer prometia. Por do sol, de um céu aberto antevendo uma noite estrelada, céu de brigadeiro e de muita curtição. Os nativos exalam o cheiro que brota das floradas de Samanaú e dos lírios dos campos aguados e circundados pela relva quase amaecida.
Os anos 60 são de invernos abundantes, exceção de meia meia, entremeados de seca verde.
E nesse clima propicio à uma bela e romântica farra, a garotada enche de brilho e alegria os salões do Grêmio Social e Cultural. Os coroas se resguardam em casa ou vão se banquetear l00 quilômetros adiante, em Currais Novos, no casamento político mais badalado da região, o do radialista e vereador Eliel Bezerra, da Rádio Brejuí, da família Salustino, do cordão do senador Dinarte Mariz.
Noite de muitos e madrugadas de mais mistérios ainda.
É madrugada, quase de manhã de domingo, 28 de setembro de l969. Os primeiros raios solares afugentam a brisa da alvorada. Manhã ainda bastante fria, por sinal, comum no período.
Mas o Sol está para irromper, aquecedor, despertando os pobres mortais sertanejos que se aventuram “a pegar o astro rei” com a mão!
Quem participara do baile ainda se espreguiça em seus aposentos, os notívagos ficam em torno dos quiosques de dona Gercina ou de Cearense, calçadas do velho Mercado Público.
Ou se resguardam para a esticada do último domingo de setembro.
Marizete, nossa grande amiga, comanda um grupo de jovens ressacados e, como não existia ainda transportes coletivos em circulação na cidade, metem o pé na estrada em buscas das águas do Itans para curar os males da balada noturna, alegre e mais festiva ainda.
Porém, uma surpresa trágica, chocante, os aguardam à altura do Parque de Exposição de Animais, às margens da BR 427: um corpo estendido no chão, de bruços, entre matos e galhos secos.
Os amigos param, mais pessoas chegam.
De quem será?
Se entreolham. Se perguntam:
- Está morto!
Ninguém, até então, reconhece o cadáver.
Menos pela posição em que se encontra o corpo, inerte, mas, principalmente, por sua desfiguração.
Literalmente, irreconhecível, todo alquebrado, visíveis sinais de torturas em toda a dimensão do jovem de estatura mediana, moreno, forte. A dantesca cena denuncia que fora vítima de uma barbárie jamais vista na região.
Por fim, um veículo, jipe 5l, para, duas pessoas descem dele, se aproximam, viram o cadáver, ainda quente e, perplexos, revelam o que nenhum presente deseja ouvir, aliás, a cidade inteira que já havia despertado com a notícia de um corpo inerte à beira do caminho para o Itans.
- Minha nossa! É Nilzon. Nilzon de Aníbal!
Curiosos, jovens notívagos de uma noite de primavera em flor, em festa, de brisa abundante, de uma madrugada/alvorecer de domingo, ficam estarrecidos:
- Não dá para acreditar. Ele passou a noite na festa com seus irmãos e amigos!
Dura realidade, cruel, muito cruel que ninguém desejava acontecer naquela manhã que prometia ser tranqüila, de mais um dia de família reunida, pais e filhos, no aconchego do lar.
A trágica e inesperada notícia se espalha como um estopim de pólvora e explode como uma bomba na cidade, distante poucos quilômetros dali, e a população, quase por inteiro, acorrem ao local principalmente os irmãos e amigos, e até mesmo os moradores que nem o conheciam pessoalmente.
Nilzon, um jovem, muito jovem ainda, pouco mais de vinte anos, alegre, curtidor da vida, o irmão mais velho, de muita responsabilidade, está ali, inerte, sem vida. Inacreditável, mas uma triste realidade.
As pessoas continuam chegando, lamentando. Reações de todos os tipos.
Quem, quando, porque?
As normas da objetividade não respondem, nada explicam, muito menos, justificam.
Não dava para acreditar na cena que acabara de manchar de sangue a manhã de primavera que mal se iniciara.
Todos lamentam, choram, a comoção é geral.
Que são esses monstros que perpetraram tamanha sandice?
Bestialidade pura.
A maioria, como lembramos, perguntava-se:
- Como e por quê?
Mas, à boca pequena, as pessoas mais chegadas, íntimas do jovem trucidado de maneira bárbara, principalmente os irmãos, tem os suspeitos na ponta da lingua:
- Foram eles!
A SAGA DE UM BRAVO
O galego Vauban sente um calafrio na espinha e faz o alerta, que soa como uma premonição fatal:
- Você viu? Libório e Mário acabam de entrar e, o mais estranho, o cão de guarda também. O que será que eles vêm fazer aqui?
Subimos os degraus, sob as copas dos fícus Benjamins, adentramos ao salão de dança e lá estavam eles. Postados, entrecobertos por um pilar, posição estratégica, por traz das mesas em que se encontravam Nilzon seus irmãos e amigos mais próximos.
Outro fato que nos deixa de orelhas em pé: a presença do doutor Pedro Militão e a esposa, em uma outra mesa, bem próxima a dos jovens.
A trinca suspeita, quer dizer, o delegado, o sempre suspeito e temível sargento, e o cachorro, demora menos de uma hora, deixam o salão e o clube, para alívio de todos.
Pensamos:
- “Que arrumação é essa? Isso já é provocação e tomara que termine tudo em paz, até porque eles não são doidos de aprontar aqui dentro, armando um fuzuê, sem necessidade. A não ser quê…
Mais tarde, início de madrugada, eu dançava com Elisa, o médico fazia o mesmo com a sua esposa quando, de repente, ele a solta um pouco, puxa-me de lado, abraça-me forte e revela todo o êxtase pelo momento que vivia:
- A festa está muito boa, e vocês merecem parabéns. Orlando, eu gosto de você! – Dito isso voltou a bailar.
Ainda bem que ele gostava de mim… Na realidade, não éramos amigos íntimos, mas havia três motivos para uma pequena relação de amizade. O pai dele, o velho jornalista e pela bucho Pedro Militão fora vizinho nosso, até morrer, na praça José Augusto. O médico atendia em um consultório localizado aos fundos do prédio da Rádio Rural, onde eu trabalhava e, por último, eu, vereador, trabalhara há um ano na campanha da Arena Verde, o mesmo cordão político de Militão, pai.
Mas, só isso mesmo. Portanto, o abraço e o desabafo extemporâneo na madrugada não somente causaram-me surpresas como, na manhã de domingo, descoberto o corpo mutilado de Nilzon, deixam-me de orelhas em pé.
Principalmente, depois, já no necrotério, de ouvir o desabafo de Anifrâncio, tete-a-tete, olho no olho, grudado em Libório:
- Você tem suspeito, nenhum. Vocês mesmos mataram meu irmão!
O delegado, com cara de cerca morena, chegara “garantindo” fazer tudo para prender e colocar “esses assassinos na cadeia”, em questão de horas…
Só não esperava pela reação de Anifrâncio colocando-o no olho do furacão, dedo em riste, voz firme e sentenciadora. Calculista, de frio de Zeca Pimenteira, gelava as veias dos mais fortes mortais. Literalmente, uma sinistrose, que ele ainda tenta colocar panos quentes:
- Olha, vou lhe desculpar, porque sinto seu lado emocional!
Depois, retira-se, com o rabo entre as pernas, porque as poucas e seguras palavras do irmão da vítima o deixaram no olho do furacão. O delegado durão acostumado a bater e arrebentar, por mais que escondesse seu nervosismo, tremera nas bases.
Agnóstico, não acredito em vida pós morte, mas alguns lampejos de premonição valem a pena refletir, meditar. E vem a pergunta – será que, quando a pessoa morre, não deseja que continuemos vivendo bem, lutando tenazmente pela vida, pelo melhor para nós e para os outros? Que todos vivam felizes, em paz e harmonia?
Nilzon morreu de forma trágica, intempestiva, mórbida, hedionda, mas deixando um legado aos familiares e amigos comuns: de não deixar a esperança morrer, o sonho acabar, formando uma forte e inquebrantável corrente, para haver justiça, continuarem à caça aos verdadeiros culpados pela morte de seu pai, que morreu junto a Carlindo Dantas. O elo fica cada vez mais firme e forte até os mistérios serem revelados e o elo envolto no obscurantismo e omissão das autoridades, enfim, desenlace o novelo. Porque nem todas as pessoas são cegas, surdas e mudas, e tem medo de dizer a verdade. A resposta certeira de Anifrâncio não se tratava de pura insinuação, instintiva, que atingira o alvo do principal suspeito. Vaga suspeita, não, é a verdade nua e crua, que explodiria dia seguinte com a surpreendente revelação do soldado Roberto, do Primeiro BEC, sentinela da Vila dos oficiais do Exército ao capitão-médico Gerson Alves Feitosa. Levado à presença do comandante do Batalhão, na segunda-feira, o militar narra tudo.
- Coronel. Não posso afirmar que foram o Delegado e o sargento, mas a Rural Willis que entrou na rua da casa de Nilzon é, realmente, a da Polícia Militar. E trata-se do mesmo veículo que saiu minutos depois, retornando à Avenida Coronel Martiniano.
Roberto acrescenta, sem deixar dúvidas:
- Nilzon também dobra a esquina, com destino a sua residência, mas, estranhamente, breca de vez a sua camioneta, em frente à casa onde mora o Prefeito doutor Chiquinho.
O sentinela, denotando medo, ansiedade e muito nervosismo pelo que presenciara há pouco mais de 24 horas, relembra os últimos momentos de vida de Nilzon:
- A freada forçada do rapaz chamou-me a atenção. Então, fiquei mais ligado ainda ao que estava para acontecer a uma quadra antes, aliás, a quadra que separa a cena do encontro de Nilzon com os policiais fica mais ou menos 50 metros da posição em que eu me encontrava.
Tudo acontece rapidamente. Deu pra ver os policiais retirando Nilzon de dentro da camioneta e o jogando dentro Rural. Logo depois, eles saíram, entrando à direita da Coronel Martiniano, entraram, à esquerda ao lado da casa de Sebastião Torres e sumiram.
O soldado do Exército, após breve pausa, conclui seu relato:
- Comandante, é só o que vi!
Dias depois, este repórter se encontra com Roberto, que havia sido meu aluno de francês no Instituto de Educação confirma a versão do que presenciara na madrugada do domingo, 29, e acrescenta algo mais:
- Orlando, eu sai do serviço direto para o quartel. Depois fui para casa dormir. Horas depois, acordo com os comentários emocionados da vizinhança a cerca da morte de Nilzon.
Levei um choque. Pensei:
- Porra, não dá pra acreditar. Mas, só pode ter sido ele, os policiais que estavam na rural.
Nilzon era um rapaz decente, que falava com tudo mundo,não se metia em confusão. Meio tonto de sono, ainda sem acreditar, resolvi ir até a casa da família Macedo.
Ao chegar, constatei a tragédia, a partir do momento em que vi a grande multidão postada em frente da casa da família.
Entrei, dei várias voltas em torno do caixão. Parei, pensei e decidi-me: eu tenho que revelar tudo o que vi, doa a quem doer, porque este crime não há de ficar impune.
Nilzon era uma pessoa muito boa, e muito jovem ainda para morrer, principalmente, da forma como morreu, sem nenhuma chance de defesa.
Então, na segunda-feira, tão logo chegou ao quartel, abri a boca!
Mas, não foi apenas o sentinela da vila dos oficiais a testemunhar o seqüestro do jovem dirigente da Uniauto, concessionária Wolksvagem em Caicó. Outro jovem, conhecido como Galego do Sargento Anízio, também presencia in loco a brusca abordagem de Libório e Mário a Nilzon:
- Bico calado, senão…!
Mas, o Galego, ao amanhecer do dia, bastante nervoso, chama a atenção do velho policial militar.
- Meu filho, o que está acontecendo com você?
Entre crises de choros, histeria, muito nervoso, balbucia:
- Nada, pai. É que, eu vi…
O sargento:
- Desembuche filho. Seja homem! – E o Galego desembuchou!
Com esses dois importantes depoimentos incriminatórios, a máscara caiu, as faces ocultas dos dois policiais são reveladas. Porque nem todas as pessoas são cegas, surdas e mudas e tem medo de dizer a verdade, simplesmente a verdade!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
CONVIVENDO COM O INIMGO
A gente jamais deixa de se jovem. A juventude é eterna, sem fim, porque ela se renova através de outras gerações, da formação e proliferação de outras famílias.
Mas, a insegurança da juventude, imprudência andam sempre juntas, de mãos dadas, por mais que teimamos em não admiti-las, porque quem pode faz, quem não teme, jaz, sucumbe para sempre.
Nós pertencemos à mesma geração. Somos muito audaciosos, intempestivos, vivendo o maior dos sonhos, que é o de sonhar bem! Por que o passado é um prólogo, o presente é a vida e o futuro é a morte, inevitável, inexorável. Puf, acaba tudo, nada mais resta.
Eu também sou alvo vivo na mira dos violentos, impunes, desde o dia que abracei as causas populares, através do microfone da Rádio Rural e de uma coluna semanal no periódico A Folha, da Diocese local.
Amado e odiado. Os que me amam devem ser os mesmos que formam a nossa audiência e que deram um mandato de quatro anos na Câmara Municipal, há três anos, e Nilzon fazia parte desse time. O time dos bons!
Os que me odeiam, são do mau, me tem como alvo. Meu pai, Júlio Rodrigues sabe disso, mas até me encoraja:
- Medo é manha!
Nilzon é um exemplo. Nada temia, até porque nada de errado faz para atrair para si a ira de seus algozes. Qualquer ilação com algum fato que o desabonasse a sua conduta como jovem cidadão é pura intriga, inveja.
Jovem, mas responsável. Aos 22 anos, gerente de uma empresa que, em parte, deixara como herança à família. Um círculo de amizade imenso, de fazer inveja a qualquer um de nós, não por que estivesse em situação financeira melhor do que os outros, mas, porque ele sempre cativou amigos.
Das peladas na Assec, o clube dos sargentos do Exército em Caicó, ou nos rachões ao lado da “mansão” do doutor Isauro Maia. Craque, não, apenas um beque de espera, que chega junto.
Lamentavelmente, na hora de voltar para casa da família, quase ao amanhecer do dia, chega só!
A Rural da PM está só, também, com uma diferença, fatal ao jovem: dentro dela, seus algozes! É dobrar a esquina e se encontrar com a morte!
Nilzon é esperado, sua casa é vizinha. Dona Francisquinha está lá dentro, junto aos filhos menores, criança ainda. Ninguém ouve, ninguém vê nada, todos dormindo o sono dos bons numa madrugada de clima ameno, convidativo a prolongar-se mais um pouco.
É madrugada, as estrelas iluminavam aquele momento, até então, lindo, brisa amena. Adormecer profundo, no amanhecer que prometia ser belo e tranqüilo.
Os criminosos sabem disso, dentro da viatura, solertes, traiçoeiros, de tocaia, à espreita da presa. Não há momento mais propício para o bote fatal.
O COMPLÔ
A iniqüidade do momento sugere prudência… e indagações. A cidade vive momentos de angústia, de insegurança, a partir da violência policial que já, há bastante tempo, com a repetição de prisões sem necessidade, de crimes hediondos, então, porque os delegados mandados para a região pelo Governo do Estado imprimem a violência como planejamento de suas ações?
Em vez de combater a violência, a induz, a pratica, de promover a paz, salvar vidas, a destrói?
As providências continuam inócuas, medidas que põem em xeque a segurança do caicoense.
Há algum tempo, arma-se o circo dos horrores, tendo o palco e o picadeiro no centro da Cidade e a avenida Coronel Martiniano como o eixo central que escoa o sangue de inocentes pelas descargas e ralos da incompetência oficial de encarar o problema de frente.
Os crimes em série viram rotina, conta-se e enterram os mortos, e ficamos a esperar pela próxima vítima, que poderá ser qualquer um de nós, por qualquer motivo.
Por exemplo: se são eles mesmos, os assassinos, e estão impunes, livres, leves e soltos por aí, em qualquer esquina, em qualquer lugar, bico calado para todos, senão…
O medo impera, a revolta aumenta.
A cidade é refém de si mesma. Em peso já comenta a barbárie, cresce o medo, a repulsa, a revolta contra os possíveis autores da chacina.
Clima de tensão, a cidade comovida pede justiça, pede o desvendamento do crime mais hediondo, mórbido de que se tem notícia na região. Os requintes de crueldade, de sado masoquismo, sandice, que atemorizam a todos, criando uma situação de medo e pânico.
Decreta-se, logo após a descoberta do corpo de Nilzon, um natural toque de recolher, de silêncio, teme-se mais violência, que poder acontecer a qualquer momento. A população sente-se abandonada.
Só, somente, só!
Única emissora de rádio a operar na cidade, a Rural, segue a praxe do momento, pouco diz, nada acrescenta sobre o assunto, a não ser, narrar, sem detalhes, a tragédia do parque.
Parece, até que o sindicato do crime retoma as suas ações.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
O PERIGO SEMPRE AO LADO!
O Baile da Primavera termina por volta das quatro da manhã, mas saímos, eu, Wagner Gorgonio e Galileu uma hora antes, para deixarmos as namoradas em casa, por trás do Hospital do Seridó, em outro quarteirão, vizinho ao Quartel da PM..
Despedida rápida. Apenas Galileu demora mais um pouco. Eu e Wagner descemos o que chamamos a “ladeira do enfermo”, alusão à casa de saúde. Na baixa, na esquina da rua da Padaria de João Horácio, o companheiro de noitada pega à direita, mal iluminada, e se distancia um pouco de mim.
- Ei, porra, vamos pela frente da Assec. Lá, pelo menos, tem luz.
- Cabora, é melhor dois andarem no escuro do que um, sozinho,no claro.
Observação inteligente do amigo.
- E vamos ligeirinho, que o velho (Clóvis Gorgônio), sai agora de quatro e meia para São João do Sabugi e eu vou junto…
Lá na frente, pegamos a Celso Dantas e, logo a seguir, ele entra na Augusto Monteiro. Eu prossigo. Quando chego ao lado do hotel (Vila do Príncipe) em construção, cerca de 30 metros da avenida Coronel Martiniano, a camioneta Chevrolet, azul e branca, que identifiquei como sendo a de Nilzon, passa rápido descendo em direção à Assec.
Chego e atravesso a maior rua da cidade em direção à nossa casa, na praça Doutor José Augusto, sem olhar a direção que o veículo toma. Horas depois, mal o dia clareia, a turma da casa do Estudante de Caicó grita de lá:
- Caboré, mataram Nilzon de Aníbal!
Saio e, de cara, deparo-me com Otávio, João Maia, Jaime Calado e o presidente da casa Rui Pereira, entre outros. Eles, apavorados, eu, boquiaberto, incrédulo:
- Como, onde, quem foi?
Otávio (jovem de Cruzeta, namorado da minha irmã caçula):
- Amigo, o corpo dele foi encontrado em frente ao Parque de Exposições. Mas, a camioneta dele estava aqui atrás, entre a casa do prefeito e a Assec.
Eu:
- Não deu pra notar quem dirigia a camioneta, mas ele passou por mim há umas duas horas atrás.
Depois, gelei. Lembrei-me da observação de Wagner, antes de nos separarmos:
- Melhor andar dois no escuro do que um no claro!
Eu e Libório nos dávamos bem. Há dois dias, na sexta à tarde, o Delegado fora nos buscar no Bandern para jogarmos salão, contra o time da PM, na quadra deles. O oficial até me elogiou por ter jogado descalço, sem proteção nenhuma nos pés, e feito um gol de bico.
Mas, Mário não gostava de mim, desde a campanha política de l966, quando me elegi vereador combatendo a violência policial comandada pelo Major Durval Barbosa de Siqueira, principalmente, depois de um cabo da corporação matar um trabalhador de me pai, Júlio Rodrigues, o popular Cícero de Laura.
Portanto, não fosse a oportuna sugestão de Wagner Gorgonio, teria passado, exatamente, na hora do sequestro de Nilzon, a exemplo do Galego Anízio. Pensando nisso, um frio na espinha deixa-me estático, surdo, mudo. Gelado, petrificado!
Quase não escuto a exagerada buzina da Rural de Lacordaire e o grito do Galego Vauban:
- O corpo de Nilzon já se encontra no necrotério, vamos lá?
Entrei no veículo, nos entreolhamos, insinuei:
- Muito estranho! Lembra-se, de ontem, no Grêmio?
Obtive, apenas, um ran ran, como resposta.
Chegamos ao HS, a cidade inteira está lá. Comovida, lamenta o ocorrido. Chora a perda do jovem, todos bastante revoltados com a tragédia. Quem fez isso e por que?
Libório chega, garante ter perseguido um “um jipe suspeito” até próximo a São João do Sabugi.
Lembrei das palavras de Wagner momentos antes, alegando pressa de chegar em casa “pois vou com velho, no jipe, para São João”. A ficha cai:
- Peraí. Terá sido eles?
Não havia inimizade entre as famílias, portanto, sem cabimento, corta essa!
Libório entra em cena:
- Anifrâncio. Juro que daqui pra de noite eu pego esses malditos que fizeram isso com o seu irmão.
O agora filho homem mais velho do falecido Aníbal da Cunha Macedo não deixa o delegado de Caicó prosseguir:
- Foram vocês que mataram meu irmão!
A acusação soa como um estampido seco, inesperado, certeiro que atinge o alvo em cheio. Que se repete durante as horas e os dias que se seguem!
POR QUE?
Uma história longa, iniciada há pouco mais de três anos, também em uma madrugada fria de uma noite festiva como aquela de final de junho de 1966.
GUARDA ABERTA
Antonio, João e Pedro formam o tríduo junino da mais animada festa popular do Nordeste. Todos na região seguem a tradição de fé e religiosidade do Além Mar, trazida pelos nossos ancestrais, brancos e pretos, que colonizaram nossos litorais, agrestes e sertões.
O primeiro é considerado, pela crendice popular, santo casadouro, os outros dois, também carregados de muitas “simpatias”, cumpadrios, danças folclóricas e tudo que a época profano religiosa nos dá direito.
Esses folguedos populares juninos mantêm a tradição até mesmo nas grandes cidades, mas, no Interior, ninguém há de perdê-los. Os anos dourados de 60, nesta segunda metade da década predominam, entre a juventude, no Mundo inteiro, o Rock do Elves Presley, o iê, iê, iê dos Beatles e do Rollings Stones, os gritinhos frenéticos e excitantes da Rita Pavone, mas aqui entre nós, apesar de Roberto Carlos mandar todo o mundo pro inferno, o parceiro do Erasmo vira rei do pop nacional.
Chega até a superar o som desafinado da bossa nova, mas a matutada se mantém fiel a outro Rei, do baião, do xaxado, da toada, do xote. E todos arrastam o pé, tanto nos sítios , nos arruados e até nas cidades de todo o tamanho da região.
É o forró de verdade, de zabumbas, triângulos e pandeiros, com os sanfoneiros rasgando o fole de 8 baixos ou pequenas concertinas na puxada do grito de guerra do grande Luiz Lua Gonzaga:
- Olhai pro céu, meu amor, e veja como ele está lindo!
E todos caem na gandaia. Um agarradinho aqui, outro acolá, os mais ousados fungam no pescoço, mas cavaleiros e damas só balançam mesmo o esqueleto com a tradicional “quadrilha”.
Ô tempão bão!
A noite de São Pedro de l966 não foge à regra em Caicó, com os clubes cheios de gente animada, apesar dos sambas e arraiais nos sítios e cidades vizinhas como São João do Sabugi, que mantém a fama de realizar a mais animada festança da temporada.
A farra dos pretos é no Caicó Esporte Clube, mais conhecida como a Sede dos Morenos. Brancos mais abastados, de famílias tradicionais, fazem a farra no pomposo Grêmio Social e Cultural, antigo Satélite, fundado pelos primeiros funcionários do Banco do Brasil, chegados à cidade a cerca de dez anos. Descriminação pura, racismo condenável, mas, fazer o que?
O médico Onaldo Queiroz também se faz presente. Nascido em Patos, Paraíba, distante cerca de 100 quilômetros, é um profissional competente, e invejado.
Alto, forte, bonito e educado, rapidamente se entrosa na “sociedade” e desperta fortes emoções nos corações das moçoilas da cidade. Chega tarde à festa realizada no Grêmio, depois de cumprir rigoroso plantão médico no hospital.
Sai cedo para dormir.
Mas desvia sua rota, entra no Grêmio, alguns doses de uísque e, finalmente, decide se recompor de um dia estafante de trabalho. Divide, com o colega Severino, em quartos separados, um dos aposentos do Centro de Saúde, localizado na Rua Renato Dantas, parede e meia com o Quartel de Polícia, um velho prédio que abrigara durante muitos anos o antigo Hospital do Seridó, transferido para os altos do bairro da Intendência.
Em lá chegando, arma a rede de varandas e se deita. Exausto pelo trabalho realizado durante todo o dia anterior e meio grogue pelos tragos sorvidos, madrugada adentro, adormece rapidamente.
Seu último sono, talvez insuficiente sequer para sonhar. Sono dos justos, por sinal. Sem retorno.
Um tiro, mortal e traiçoeiro, ecoa dia amanhecendo, primeiros raios solares, acerta a têmpora do doutor Onaldo e rouba sua vida, apenas 30 anos de existência.
Rápida como um rastilho de pólvora, a trágica notícia se espalha pela cidade, de boca em boca, e a Rádio Rural espalha sertões a fora em edição extraordinária. Centenas e mais centenas de caicoenses acorrem ao local da tragédia. A indignação, emoção, comoção, de uma população ordeira e hospitaleira, que já se familiarizara com o competente e simpático médico, descendente de tradicional família paraibana.
Inclusive, seu irmão Zito, é craque de futebol, jogador do Sport Club de Patos, que sempre se apresenta no Walfredo Gurgel, em Caicó. E o clube da nossa cidade retribui a visita. Os jogueiros daqui o conhecem e com ele mantem amizade. Reforçada pela vinda, a algum tempo, do profissional de medicina para atender os caicoenses.
Mas, aqui reside a questão:
- Quem e por que mataram o doutor Onaldo?
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
MISTÉRIO, SUPEITAS
- Deve ter sido doutor Carindo!
O assassinato de Onaldo está envolto em mistério, visto que ele não tem inimigo na cidade, aliás, gozava de grande prestígio, mas, qual a razão de por o também médico Carlindo Dantas no olho do furacão como principal suspeito da trama que o levou a morte?
Até a manhã do dia seguinte, uma quinta-feira, embora muitas pessoas, principalmente seus adversários políticos e inimigos pessoais declarados o julgassem culpado, a maioria da população não acredita na versão corrente já em todo o Estado, especialmente em Patos, terra Natal do doutor Onaldo.
Mas, no Retiro, fazenda de propriedade de José do Carmo Dantas, as opiniões se dividem. Uma turma da Rádio Rural, juntos com amigos, e convidados pelos filhos e sobrinhos do fazendeiro, participa de um forró no clube de São José da Bonita.
Na volta, ficam num banho no rio Seridó até o sol sair e esquentar. Ao chegar à casa sede da fazenda, Zé do Carmo, grande e inesquecível figura humana, sempre de bom humor, nos recebe de cara fechada.
- Estão sabendo?
- De que, coroné?
- Mataram doutor Onaldo Queiroz, segundo a Rádio Rural.
- E quem foi?
- Disseram apenas que ele dormia numa rede, na sala do Posto de Saúde. Nada mais!
A turma respira fundo, estarrecida com a trágica notícia e detona:
- Só pode ter sido doutor Carlindo!
Mais de uma hora depois do café, chega um jipe willys quatro portas. Buzina, dele, desce o caçador Ageu Capuxu. Zé do Carmo vai recebê, a gente, ávida por notícia, o segue, mas, antes de perguntarmos alguma coisa, o visitante dispara:
- Já souberam, que mataram o doutor Onaldo?
Zé do Carmo:
- Já, deu na rádio. Mas não disseram quem matou o homem!
Ageu:
- Pessoal. Tão jogando a culpa pra doutor Carlindo!
Ageu sorve uma quenga de café, torrado em casa e quentinho ainda , preparado por Ciça, a fiel cozinheira de dona Julita, a companheira inseparável de Zé do Carmo e depois segue em rumo da Caatinga Grande em busca de aves de arribação.
O acontecimento trágico não saia das nossas mentes. Ficamos a matutar: como estará agora o clima em Caicó, diante de um crime tão bárbaro e misterioso e que, fatalmente, haverá vindita, por parte da família Queiroz, clã numerosa que se espalha por toda a Paraíba e Ceará?
Fiquei mais tenso e curioso, lamentando a morte de Onaldo, a vítima, e por Carlindo, o suposto acusado, amigo da nossa família e dos colegas da Rádio Rural, também. Manhã de sábado, ao voltarmos à cidade, deparo-me com o meu pai, Júlio Rodrigues. O diálogo é inevitável:
- E aí, velho, quem matou Onaldo?
- A RUA GRANDE inteira está acusando Carlindo!
Dirijo-me à Rádio, onde eu era diretor artístico, padre Tércio (o geral) me espera com a cara de poucos amigos:
- Mas, rapaz, faz quatro dias que não aparece nem dá notícia! Vou perdoar mais uma vez, mas com uma condição: vamos continuar de bico fechado em relação à morte de Onaldo e também com os boatos à boca pequena que correm na cidade apontando o doutor Carlindo como principal suspeito.
Não precisava da recomendação: o próprio Carlindo, por volta do meio dia do sábado, se encarrega de atrair para si mais suspeitas de envolvimento no crime. Chega à fábrica de molas do seu amigo Berto da Firma e despeja várias armas nos fornos fumegantes da indústria de molas para automóveis.
A queima das armas corrobora mais ainda para incriminar o já suspeito Carlindo na cena do crime do médico paraibano. Seus adversário, que são muitos, se unem nas acusações e na propagação dos recentes fatos registrados na então pacata cidade seridoense, enquanto os amigos do peito, principalmente, os correligionários do senador Dinarte Mariz, o defendem com unhas e dentes.
- Carlindo é inocente e não tem envolvimento algum com a morte de doutor Onaldo. Aliás, era amigo da vítima. Não havia motivos para ele matar o colega médico – garante o advogado Francisco de Assis Medeiros, o doutor Chiquinho, seu principal defensor.
Carlindo Dantas, mesmo acusado, entra para valer na política, como candidato a candidato a deputado estadual pela Arena (Vermelha) comandada no Estado pelo senador Dinarte Mariz.
O outro lado, a Arena Verde, chefiada pelo ex-governador Aluizio Alves, com seus aliados locais, os Torres, protestam. O acirramento político e pessoal toma forma gigantesca, e nem mesmo o indiciamento e a prisão de Carlindo não serenam os ânimos.
Nada provado contra Carlindo, é posto em liberdade, seus amigos comemoram, seus adversários bufam de raiva.
Quanto aos familiares de Onaldo, acompanham o desenrolar do intrínseco novelo, em silêncio. Pouco tempo depois, os Maia de Catolé manifestam solidariedade pela dor e perda do membro mais querido da família, covardemente assassinado na manhã do último final de semana de junho em Caicó.
Junte-se ao imbróglio, cada dia mais aterrador e imprevisível, a solidariedade dos médicos locais à família do colega morto.
E o mais grave, ainda: o medo. Medo de terem o mesmo fim!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
VER PARA CRER!
Patos é a segunda cidade do Interior paraibano. Próspera, de comércio e indústria emergentes, estrategicamente, localizada entre Campina Grande, no Brejo, e Pombal, Souza e Cajazeiras, no Alto Sertão Paraibano, também em considerável rítmo de crescimento.
Aliás, a presença de uma companhia do Iº BEC – Batalhão de Engenharia e Construção, sediado em Caicó, é um dos fatores do desenvolvimento econômico e social na região.
Região por onde se espalha a numerosa família Queiroz, de Onaldo. E, apesar da distância, e da existência de uma emissora de rádio, a Espinharas, de Patos, a Rural de Caicó mantém excelentes índices de audiências nesses municípios.
Então, além das ligações telefônicas emitidas de Caicó para os familiares do jovem médico assassinado, principalmente para os seus pais e irmãos, a emissora caicoense, através do radialista Evilásio Souza, só abre a partir das 7 horas e 30 minutros, mas, mesmo com atraso de mais duas horas e a concorrência da Espinharas, a notícia chega a todo o estado da Paraíba.
Não demora muito para o quarteirão inteiro onde fica o palco da tragédia encher de gente, da cidade e da zona rural. E a pergunta continuar no ar, generalizada:
- Quem matou doutor Onaldo?
Uma outra indagação surge entre a multidão, carregada de suspeitas:
- Aqui, dia clareando, ao lado do quartel de polícia?
Exatamente, é só pular o muro, chegar à janela da sala, encostar o cano:
- Bang!
A notícia acorda Patos, a família não acredita, pede explicações, mais informações. Se inteira de tudo – ou, quase tudo: ninguém sabe quem disparou o tiro de rifle que atingiu a têmpora do médico. Os familiares chegam a Caicó, comovidos com a perda repentina daquele que consideram o exemplo, o líder do clã.
Os amigos locais, colegas médicos, funcionários do Hospital em que trabalhara até ontem à noite. Os colegas de clubes de serviço em era que sócio ou apenas convidado de honra, o doutor Severino, também médico, e que dormia na cena do crime, aposento vizinho, mas, sobre a identidade do autor da barbárie, obtém apenas o silêncio como resposta.
A vez da Polícia: nada sabe, inclusive, o comandante do destacamento policial e também delegado, capitão Durval Siqueira, ainda não sabe de nada, apesar de iniciadas as investigações.
A família Queiroz, confortada pelos amigos do filho, aguarda pela liberação do corpo de Onaldo. Momentos depois, regressa a Patos para o velório e sepultamento. A exemplo de Caicó, o feriado de final de junho de 1966 é o mais triste da história. A cidade para e enterra seu filho dos mais queridos.
Momentos de dor, muita comoção, revolta. Prenúncio de que dias mais turbulentos virão. É aguardar para ver.
AMIGOS, PERO NO MUCHO!
Ex-adversários, agora amigos e correligionários. O doutor Osvaldo Lobo pertencera ao PSD de Jardim de Piranhas, comandado pelo guru e lendário Plínio Veras Saldanha, o famoso e folclórico Marinheiro Saldanha, falecido há seis anos. Vejam só, que figura:
Marinheiro era suplente de senador de outra potência política e econômica. O não menos famoso senador João Câmara, detentor de muitas léguas de terras, imóveis e usinas de beneficiamento de algodão.
Morreu em 02 de dezembro de l948, vítima de um infarto fulminante, em sua residência de quase um quarteirão de tamanho na avenida Hermes da Fonseca. Amigos e correligionários do PSD, prestadas as homenagens de praxe, procuram o suplente, Marinheiro:
- Me mudar pro Rio de Janeiro, nunca!
Insistiram, cansaram de insistir. O coronel sertanejo não se dobra:
- De jeito nenhum. Não deixo as Esperas, Jardim de Piranhas, o Seridó, jamais!
As Esperas, principalmente. É seu quartel general, um austero comandante que tem suas tropas sobre controle e seus amigos debaixo do braço!
Voltando ao médico Osvaldo Lobo. Depois de Prefeito em Jardim de Piranhas, voltar a trabalhar em Caicó, fixando-se residência em definitivo. Atende em consultório, localizado na esquina da avenida Seridó com a Augusto Monteiro, e em plantões no Hospital do Seridó.
É amigo do meu pai, Júlio Rodrigues, viúvo, mas muito chegado à enfermeira Engrácia, que trabalha para o médico. Já Osvaldo Lobo não sabe quem eu sou, principalmente, naquele final de tarde de um domingo tenso véspera das eleições de l965.
Cenário: Expresso JK, um barzinho café, localizado na esquina da avenida coronel Martiniano com a Rio Branco, em pleno centro da cidade. Fundado por Inácio Dantas, hoje pertence a um pernambucano que veio de Arco Verde, Pernambuco, e se instala na casa do fazendeiro José Antonio da Costa, que mora vizinho à nossa casa na Praça José Augusto, de muitas querelas políticas.
O forasteiro é bem educado, fala mansa, baixinho, parece inofensivo, mas, na realidade, carrega um fardo pesado nas costas: um homicídio. Virando a página, rapidamente se entrosa na sociedade e adquire o expresso de Inácio Dantas. Ganha nome, Paulo do JK, e uma considerável freguesia.
Formada por políticos, principalmente. De ambos os lados. E o novo dono, “manso”, não revela suas preferências eleitorais a ninguém.
É raro, passarmos um domingo sem uns goles, mas, no final daquele dia, de tranquilidade , eu, Neto Damásio e Miguel das Medalhas, todos da Rádio Rural, fomos recuperar o dia perdido e nos dirigimos ao JK. Ao entrarmos, nos deparamos com Osvaldo Lobo, de frente, escorado no balcão, bastante alterado, e tete a tete com ele, sentado de costas para nós, o doutor Carlindo.
A rádio é alvo de críticas do dinartismo, que acusa a emissora de fazer proselitismo político em favor do Monsenhor Walfredo Gurgel, senador e candidato ao Governo do Estado contra o também senador Dinarte Mariz.
Ambos caicoenses, o padre é do PSD, o ex-governador é da UDN, os dois partidos com os dias contados pela ditadura militar.
Osvaldo é duro nas críticas:
- Na rádio só tem comunistas, quinta coluna. Precisamos dar um basta nisso!
Carlindo, que já pensava em se candidatar a deputado, é amigo nosso, sempre nos convida a beber na casa dele e nos bares da vida, nos defende:
- Que é isso, Osvaldo? Me dou muito bem com a turma de lá.
Lobo insiste:
- Tá com medo, homem. A gente vai lá e toco fogo de bala naquela merda!
- Homem, lá tem filhos de amigos nossos, como um de Júlio Rodrigues, nosso amigo e correligionário…
Suspendemos a cerveja e voltamos à emissora. Avisamos para os colegas, ficamos no lado de fora de sobreaviso. Felizmente, Carlindo deve ter removido Osvaldo da idéia, pois não apareceram…
Mas, fiquei surpreso: então, Osvaldo Lobo só pode ter rompido com Aluisio Alves, Joel Dantas, José Josias, Manoel Torres, e agora quer descontar em nós?
Mas, as ameaças contra a rádio Rural, o bispo, os padres, o sacristão, enfim, não ficam por aí. Dias depois, em jantar na residência do industrial Adjuto Dias, esta lá, novamente, junto com meu pai. Osvaldo, também. Quando ele começou a falar, dei no pé!
Aliás, não causou surpresa a Júlio Rodrigues, a Adjuto, nem a Carlindo, pois eles sabiam o meu candidato a Governador:
- NULO!
A princípio, os leitores devem estar se perguntando: qual a relação dessa “revelação pessoal” de Caboré tem a ver com a morte de Onaldo.
Calma, amigos, aguardem, que A SÍNDROME DA RUA GRANDE está só começando!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
CASO ONALDO: MISTÉRIO, DÚVIDAS!
Voltamos ao depoimento do advogado e amigo íntimo do médico Carlindo Dantas, Francisco de Assis Medeiro, o “doutor Chiquinho”:
- No dia 29 de junho de 1966, por volta das horas da manhã, Misael Teotônio Pereira avisou-me da morte que o doutor Onaldo Pereira de Queiroz tinha sido encontrado morto no aposento em que dormia vizinho ao Quartel de Polícia.
Dirigi-me para ao local do crime, que já encontrei isolado pela Polícia. Presentes apenas umas quinze ou vinte pessoas. Ao dirigir-me ao Capitão Durval Barbosa de Siqueira, delegado de Polícia, perguntei-lhe se já existia alguma pista que pudesse esclarecer a morte a morte do médico.
De início, julguei tratar-se de suicídio. Seria quase impossível que alguém viesse matar uma pessoa neste local, quase dentro do quartel, nas barbas da sentinela!
Doutor Chiquinho prossegue, lembrando a festa junina da noite anterior “onde Onaldo havia passado a noite toda no clube… tendo chegado aos seus aposentos para dormir, entre quatro e cinco , já ao amanhecer do dia, portanto!”.
Levanta dúvidas:
“Por isso, alguns concluíram, de imediato, tratar-se de crime cometido por policial, pois logo se notou inexistir arma junto ao corpo do morto, afastando-se a hipótese de suicídio.
… Comentava-se, outrossim, que um soldado da Polícia o responsabilizava pela morte da mulher, decorrente de parto cesariano feieto no Hospital do Seridó.”
Continua o doutor Chiquinho no depoimento sobre a morte misteriosa do doutor Onaldo:
“Diversas outras versões surgiram; algumas, sem nenhum fundamento, foram de plano abandonadas, outras jamais chegaram a ser investigadas, mas , afinal, prevaleceu o coro apontando o médico Carlindo de Souza Dantas, ora como autor, ora como mandante do crime, sob a alegação de a voz do povo é a voz de Deus”.
Segue Chiquinho na defesa do amigo acusado de matar o colega médico:
… O capitão Durval Barbosa de Siqueira, para responder a minha interpelação, afastou-se um pouco do grupo, chamou-me para perto de si e cochichou no meu ouvido:
“Não tenho dúvida, doutor, quem matou Onaldo foi Carlindo. Quem poderia ter sido a não ser ele?”
O advogado encheu-se de dúvidas sobre as suposições, segundo, ele maldosas por parte da autoridade policial:
… “Ainda não tinha sido feito sequer o exame de corpo de delito, mas a orquestração contra Carlindo já estava montada de forma tão ruidosa que, aos incautos, pareciam verossímeis as história grotescas que iam saindo cada vez mais requintadas de crueldade da boca dos incansáveis acusadores”.
A HORA SEGUINTE
Enquanto o clima de comoção e de tensão aumentava, os familiares do doutor Onaldo chegavam de toda as partes do estado vizinho, principalmente, de Patos e municípios vizinhos, onde a vítima e seus parentes gozam de grande prestígio social, político e econômico. A notícia da morte repentina do médico causa um impacto violento no seio do clã.
A princípio, apenas choravam e lamentavam a morte prematura do jovem médico. São confortados, recebem os pêsames, o sentimento de perda, da dor, dos caicoenses pelo profissional de saúde que já se incorporara, através de sua competência de médico, simpatia, que conquistara cidade inteira.
A população o aceitara de imediato:
- É como se fosse um dos nossos!
Mas, o quadro começa a mudar diante dos comentários surgido nos momentos seguintes à tragédia, que chegam aos ouvidos do delegado Durval Barbosa e este os repassa aos familiares da vítima:
- O nosso principal suspeito é o doutor Carlindo!
Durval e Carlindo não se davam bem. As suspeitas do delegado, acusado de implantar um clima de terror na região, inclusive acobertando e extorquindo criminosos, açodaram o clima de apreensão, medo e até possível vindita.
E, com o passar dos dias, mais lenha na fogueira, principalmente, com a queima das armas pelo próprio suspeito nos fornos da fábrica de molas de Berto da Firma.
Literalmente, o tempo esquenta!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
MUDO FALA, E DESAPARECE!
- Foi Luquinha!
- Quem foi que disse?
- Pelas características, fornecidas por um cabeceiro que estava na porta da bodega de Julião Teixeira, o cabra de passadas largas, quase correndo, que saiu da Rua Renato Dantas e dobrou a esquina da Rua Serra Negra, era Luquinha.
- É possível. Ele atua na região das Espinharas, com base entre Patos e o Teixeira. E o doutor Onaldo é dali…!!!
A imaginação popular tanto serve para defender amigos ou acusar adversários. Neste caso, é para desviar a atenção das suspeitas que recaem sobre Carlindo, suspeito desde a primeira hora que o doutor Severino acorda e vai até a sala em que o colega médico dormia e se depara com a cena dantesca: o corpo inerte de Onaldo dentro de uma rede, em toda a sua extensão, uma imensa poça de sangue em baixo e nenhuma arma por perto.
O companheiro de “república”, ao olhar para frente, ver a janela aberta, a fresta de sol a iluminar todo o ambiente. Visualizar mais o que?
Assassinado enquanto dormia. Tocaia premeditada, minuciosamente executada, a sangue frio, sem direito de defesa à pessoa emboscada, com o autor na obrigação de não errar o tiro. Assim, assado, na linguagem dos matadores profissionais, de aluguel!
A versão pondo o famoso pistoleiro paraibano na cena do crime é, de pronto, descartada. Na realidade, ninguém provou sequer a sua presença em Caicó. Pelas informações da Polícia da Paraíba, Luquinha, no momento, há muito tempo que não dava as caras pelas cidades da região, por dois motivos: estava sendo caçado impiedosamente pelas milícias tabajaras para responder processos na Justiça.
E, segundo familiares e amigos do médico rechaçaram a existência de qualquer inimizade, rixas e até leves atritos envolvendo Onaldo em Patos e região. Comprovadamente, era uma pessoa do bem!
Como também as insinuações do delegado de Caicó, Durval, minutos depois da constatação do crime pondo Carlindo no olho do furacão, era fruto da imaginação de um policial rancoroso e incompetente para agir com isenção em um caso tão misterioso e intrigante. O caso é delicado, melindroso, digno de um delegado especial na chefia das investigações.
Para entornar cada vez mal o caldo, entra em cena o mudo Zé Tomé, morador do Itans. Não pronunciava uma palavra, mas seus gestos falavam por si, segundo depoimentos, repetidas vezes, do seu protetor Manoel Abgail, bodegueiro na vila.
- O mudinho diz que foi gente graduada da polícia que matou o doutor Onaldo!
Gente graduada?
- Exatamente. Ele bate com as mãos nos ombros, indicando que o assassino tem estrelas!
Chamado pelo patrão, o Mudo repete os gestos.
Vira atração, quando não aparecia na cidade, as pessoas se dirigiam até o Itans para vê-lo “falar” sobre o crime e seus possíveis autores. Até que um dia qualquer da semana já no mês de julho de 66, o mudinho não é mais visto na vila, nem em outro ponto da cidade. Escafede-se para sempre. Surge um novo e grande mistério. A imaginação fértil cria um novo caso, um novo herói:
- O Mudo desapareceu!
A notícia se espalha rapidamente pelos quadros cantos da região, ultrapassa fronteira, vira manchetes de jornais até na grande imprensa. Novas insinuações, enquanto o sumiço e o paradeiro do “Mudo do Itans” são totalmente desconhecidos.
Chega-se ao extremo:
- Mataram o Mudo e o enterraram!
- Quem fez isso?
- Só pode ter sido a Polícia, pois ele é testemunha da morte do doutor Onaldo!
Novamente, as atenções são desviadas. Agora, só se fala, lamenta, o desaparecimento do Mudo.
Enquanto isso, a família da vítima, chefiada pelo senhor Bastos Queiroz, após enterrar o ente querido, fica a espera do desfecho do caso, por parte da polícia do RN, à frente o coronel Bento Manoel de Medeiros, o lendário Coronel Bento, caçador de foras-da-lei, e também do
pronunciamento da Justiça.
Começa a formação de um cartel em terras tabajaras e potiguares, com gente de peso, como o Major Olímpio Maia. Elucidado ou não o caso Onaldo Queiroz, sente-se o cheiro acre de chumbo e pólvora no ar.
Vingança a qualquer hora, a qualquer preço, em qualquer lugar!
O FURACÃO CARLINDO
Amado e odiado. Mais amado do que odiado. Acusado pelo envolvimento direto na morte do colega médico Onaldo Queiroz, mesmo sem provas, Carlindo é preso em 03 de agosto de l966 e solto, graças a um pedido de habeas corpus, em l6 de setembro, portanto 45 dias depois de decretada sua prisão preventiva.
Antes da prisão, ele já havia se lançado a candidato a candidato a deputado estadual pela Arena (vermelha). Liberado, assume de vez a sua campanha e, restando exatamente 02 meses para as eleições parlamentares, estoura nas urnas e se elege para o seu único mandato político.
É o terceiro mais votado do Estado, mas com a renúncia do primeiro colocado César Alencar, sobe para o segundo lugar, aumentando mais ainda sua força política entre o eleitorado, principalmente, no Seridó. Brincava:
- Mais um pouquinho de votos e, agora, eu seria o primeiro mais votado…
Considerado pela maioria como bom profissional da medicina, “o pai da pobreza”, Carlindo era uma figura polêmica, de se envolver em atritos não somente em sua região, mas com os próprios colegas de Legislativo, como o ocorrido com o deputado estadual Walmir Targino, também de temperamento forte.
O senador Dinarte Mariz, mesmo depois das derrotas políticas de 60, quando era governador e apoiou Djalma Marinho, batido nas urnas por Aluisio Alves, e de 1965, no embate contra o conterrâneo Monsenhor Walfredo Gurgel, continuava dando as cartas na região do Seridó, onde era o líder maior.
A Arena Vermelha que liderava, principalmente em Caicó, conseguiu, pela primeira vez, eleger dois deputados: Milton Marinho (reeleito às duras penas) e Carlindo de Souza Dantas com uma votação estrondosa. DM, com uma pulga atrás da orelha e vislumbrando o futuro, não digeriu muito bem o resultado.
Mas…
A cada pronunciamento de Carlindo Dantas na AL, as paredes balançavam. Eram fortes e incisivos, tratando de um só tema: a morte de Onaldo, cujo crime negava e atribuía a outras pessoas que jamais revelaria os nomes. Sempre ao voltar ao Seridó, fazia na rádio Brejuí de Currais Novos um pronunciamento forte, com acusações pesadas aos inimigos, que repetia dia seguinte, sábado, na rádio Rural de Caicó.
Porém, o de 27 de outubro de 1967 é o último de sua curta carreira política: no sábado, 28, Carlindo e um amigo do peito, de primeira hora, Aníbal da Cunha Macedo, são tocaiados e mortos em frente ao Caicó Esporte Clube.
COMO NOS TEMPOS DOS INTOCÁVEIS….
Os negros também formam uma irmandade e festejam a sua padroeira. Vedada a todos a entrada nas igrejas – o direito era dos brancos, eles resolvem fundar a Irmandade dos Negros do Rosário em 1771.
Se, no início, havia o apartheid religioso sem concessões, atualmente brancos e negros, mestiços, mamelucos, essa miscigenação proliferada por senhores feudais e seus escravos, a confraternização agora é uníssona, sem frescuras.
Enquanto a festa mais tradicional, religiosa e profana a cada ano atrai mais visitantes, a segunda vem perdendo as suas características, o seu brilho. Os Negros do Rosário já não são mais os mesmos, encolheram em tamanho, cor e entusiasmo. Os festejos de rua foram despejados do largo do Rosário para a Praça da Liberdade.
Típica inversão de valores e originalidade. Aliás, até os anos 60, a nossa geração considerava a festa do Rosário mais autêntica do que a da padroeira. Pelo menos, em calor humano, confraternização entre os locais.
Era uma festa só da gente, gente humilde do lugar, talvez devido ao período, outubro, de aulas, enquanto julho é mês de férias. Mas, mantinha-se a tradição dos cordões azuis e encarnados e, logicamente, a sadia e gostosa rivalidade das disputadíssimas escolhas das rainhas da festa.
Pavilhões lado a lado, repletos de jovens efervescentes, excitados, excitantes. Ao redor do passeio, rapazes rodando ao contrário das moçoilas, siracoteando de um lado para o outro. Os banquinhos da pracinha disputadíssimos, aconchegantes, tenros, abraços, beijos inocentes, mais cheios de prazer, bares e bazares com sorteios diversos.
E não faltavam as mensagens musicais ecoadas dos altos falantes dos parques de diversões, na voz melosa de Chico Tomaz. Mafuá sadio, decibéis que não poluíam nem perfuravam os tímpanos de uma vivalma sequer.
Parafernália, tudo em nome da confraternização, de paz e harmonia entre as famílias da cidade e da região que, na realidade, entrelaçadas, formam uma única e poderosa família em uma terra ordeira e hospitaleira.
Mas, tudo tem seu dia e hora!
Noite fatídica aquela de sábado, o último de outubro de l967. O baile final era no domingo na AABB, como rezava a tradição, mas, no sábado, o clube dos sargentos do Exército e a Sede dos Morenos se antecipam e acolhem os seus festeiros em seus salões.
Coincidentemente, os dois sodalícios ficam na mesma Avenida Coronel Martiniano. Os pistoleiros escolhem exatamente o Caicó Esporte Clube como Praça de Guerra para executarem a empreitada. Matar e matar!
Postam-se estrategicamente em frente e na calçada do clube e fuzilam seu alvo. Questão de segundos. Cumprem a tarefa e se escafedem como se fossem os fantásticos homens que desaparecem nas telas de cinema.
Passado o tiroteio, receosa ainda de um retorno dos cruéis assassinos, a cidade conta seus mortos e feridos. Entre as vítimas fatais, o médico deputado Carlindo de Souza Dantas e o industrial Aníbal da Cunha Macedo, amigo de primeira e últimas horas.
Fim de baile que mal se iniciara com o som do piston de Galinha, jovem músico parelhense, ecoando os primeiros acordes de El Presidente, sucesso internacional de Al Hirst.
Esvaziam-se os clubes, a cidade acorda, enchem as ruas do centro, da periferia, a trágica notícia se espalha por todos os recantos, e todos acorrem ao Caicó Esporte Clube.
A população em claro, indignada, incrédula, comovida, revoltada.
- Não acredito, dizia um.
- Não pode ser, repetia outro.
- O mundo agora se acaba – exclamava a gente do povo.
O mundo, logicamente, não se acabaria ali, naquele momento de catarse coletiva, porém, Caicó jamais seria a mesma!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
SUSPEITOS, ATÉ PROVA EM CONTRÁRO!
O pânico se instala na cidade. Eram cerca de l0 horas da noite, noite que prometia ser de embalo, de muita alegria, mas termina em tristeza, muito sangue derramado nas calçadas da Sede dos Morenos, com mortes e feridos e a revolta de toda a população.
Ninguém se entende, e a tragédia quase se prolonga noite, madrugada a dentro, provocada pelos amigos e partidários do deputado, à frente o próprio juiz da cidade, João Marinho da Silva.
Na pressa de encontrar o mais rápido possível os pistoleiros responsáveis pela chacina, e sem nenhum censo de razão e de investigação policial, todos estavam atabalhoados com o inesperado e trágico acontecimento, formam-se milícias e saem grupos desorganizados para uma caçada sem rumo e sem prumo.
Automóveis de placas de outros municípios, principalmente do Estado da Paraíba, são parados, com seus ocupantes submetidos a interrogatórios ameaçadores, cheios de ódio, como se fossem uns facínoras a soldo do crime organizado. Principalmente, os matadores de Carlindo e Aníbal.
Os veículos de placas de Brejo do Cruz, Catolé e Patos, principalmente, são perseguidos, bloqueados, e seus ocupantes, submetidos também ao vexame de serem confundidos, apontados como “bandidos”, participantes do tiroteio que matara o doutor Carlindo e seu amigo Aníbal.
O popular Raminho é um deles, notadamente pelo fato de o veículo que conduzia ter sido emplacado em Patos.
A turba ensandecida, arma em punho, em riste, já mirando o alvo, gritava:
- É um deles!
Recambiados para a cidade, são humilhados, vítimas de todos os tipos de ameaças.
A caçada dura a noite toda, mas as presas são inocentes. Enquanto isso, a população já está de pé, sobressaltada com o impacto da tragédia. Ninguém mais dorme, a notícia se espalha, mesmo com a única emissora de rádio do município silenciar sua voz, sem omitir sequer uma pequena nota sobre o caso.
O medo é enorme, a temeridade, maior ainda. O momento requer mutismo total, os matadores podem estar por perto, e os mandantes, quem sabe, ao nosso lado. Não se diz coisa com coisa, mas a fértil e contraditória mente do comando de caça aos bandidos, ainda desconhecidos, desvia o caso para o lado político e pessoal:
- A família Torres!
O “pelabuchau”, como é chamado o adversário mais ferrenho do dinartismo local, é apontado como os principais mentores da formação do cartel visando a eliminação do deputado e, por conseguinte, do amigo. O clima esquenta e, por pouco, a carnificina não se prolonga.
Coincidentemente, o próximo ano, 1968, é de campanha política, e o episódio, com certeza, é um prato cheio a ser explorado e degustado pelos candidatos locais. Mas, apesar das perigosas acusações, a cidade inteira se une a dor e ao sofrimento dos familiares das vítimas.
Contados os mortos, socorridos os feridos, para o Hospital do Seridó, onde, coincidentemente, trabalharam Onaldo e Carlindo, personagens principais do cortejo fúnebre, a cidade permanece acordada, de pé, caminhando sem rumo, em busca de notícias sobre os autores da tragédia que acabara de se abater sobre todos.
Júlio Rodrigues é um deles, eu também. Aliás, a ressaca de um porre durante o dia, faz-me baquear cedo da noite. Estava totalmente lotado, com a cerveja fugindo pelo ladrão, mesmo, assim, soube que o meu primo Joca (João Rodrigues Filho) estava na ASSEC, clube dos sargentos do Exército, esperando por mim, em companhia do seu cunhado, Maurílio Pinto de Medeiros, um jovem policial civil, filho do Coronel Bento Manoel de Medeiros, famoso caçador de bandidos.
Vou até lá, mas a multidão em frente ao clube, também na avenida Cel. Martiniano, faz-me desistir. Volto, deparo-me com o amigo Chico Saldanha abastecendo o carro, uma Rural Willis, no Posto de Abílio Félix, meu colega vereador, a uns 50 metros da nossa casa, na Praça José Augusto.
- Cabora, vamos para o Caicó. Doutor Carlindo tem duas senhas pra gente.
- Negativo. Vou pra casa ouvir o jogo Botafogo x América ( pela taça Guanabara que, à época, é disputada no segundo semestre – o campeonato carioca é no primeiro ).
Chico cansa de tanto insistir, dá meia volta no carro e desce em direção ao Caicó Esporte Clube. Após beber uns dois copos de água gelada ( na nossa casa não há geladeira, usa-se o pote de barro em cima de uma Cantareira). Sigo viagem.
Em lá chegando, de pronto, ligo o rádio ( um velho Phillips, de teclado, que pegava briga de vizinho e chuva no Piauí). Não dá tempo nem de ouvir o tempo e placar na voz de Waldir Amaral, e chega meu pai, esbaforido:
- Tinine. Cadê Tõe, já está em casa?
- Não senhor. O que aconteceu?
- Não saia de casa, de jeito nenhum. Acabaram de matar Carlindo e Aníbal, no Caicó! Vou atrás de Tõe.
Tôe é Uai, também conhecido por Antonio Murilo Rodrigues, nosso irmão caçula, mais frouxo do que roupa de palhaço.
A revelação de Júlio Rodrigues acaba com a ressaca de uma carraspana das brabas, iniciada na manhã deste sábado. E em dia de feira semanal, matuto nenhum resiste à culinária sertaneja.
Refaço-me, mas não sigo o conselho do “velho”. Vou à luta, desço ao palco da tragédia, onde toda a cidade também se faz presente. Chico Saldanha é um deles, tremendo mais que vara verde:
- Home, mal estacionei o carro, o tiroteio começou. Bala pra todos os lados. Quando parou, vi Carlindo e Aníbal mortos.
Não sei mais com quem, pego uma carona até o Hospital do Seridó. No portão, soldados do Exército fortemente armados, impedem a entrada de curiosos. Valo-me do amigo e colega de rádio, cabo Aluizio Lacerda, também empunhando uma “lurdinha”:
- Entre. Na volta, traga notícias do soldado César, que está baleado na barriga.
O padre Balbino, todo paramentado para uma cerimônia fúnebre, pede-me ajuda para realizar o sacramento da extrema unção pós morte. Alcoólatra no presente, havia sido Acólito no passado, de vestir batina no Salesiano, em Natal.
Na saída, informei ao cabo Lacerda do “preocupante” estado de saúde de César:
- Aquele fela da puta está gozando com o doutor Gerson e os outros médicos que estão lá dentro. Sofreu apenas um tiro de raspão na barriga.
A multidão faz um cerco em torno do Hospital, à procura de notícias, mesmo sabendo das mortes de Carlindo e Aníbal. Também jovens estudantes estão no local, depois de confirmadas as presenças ali dos colegas Julimar Andrade Vieira e Lino, baleados, ambos da Casa do Estudante de Caicó.
Volto ao Caicó Esporte Clube. Encontro o elo perdido, Uai, o caçula de Júlio Rodrigues, ainda tentando recuperar o fôlego:
- Escapei por um triz, aliás, escondido atrás de um poste ali na esquina!
Maurici Chicola, o Bebão, gordinho, melhor goleiro de futebol de salão da cidade, viveu um drama maior: mergulhou em baixo de um fusca. Quando as balas cessaram, tentou sair, mas a barriga impediu. Como todas as pessoas presentes na hora do tiroteio deram no pé, ele fica só, abandonado. O jeito é gritar, alto e bom som:
- Socorro, tirem-me daqui!
Já passava de meia noite. Encontro-me com Zé Leão, Cambitinha, Charles Garrido e Givaldo Teixeira, o Esgoto. Como não dá para esquecer o triste episódio, fomos continuar a carraspana do dia interior.
Destino: Bar do Coreto, sorvendo vodka com leite gelado até amanhecer o dia. Desta vez, sem ressaca!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
SOB O SÍGNO DA VIOLÊNCIA
A cidade amanheceu acordada. Aliás, quem haveria de dormir depois dos acontecimentos da noite anterior daquele fatídico 28 de outubro em que tudo estava programado para ser mais um alegre e dançante final de festa dos Negros do Rosário?
Pela primeira vez na história da Irmandade, fundada em l77l e instalada somente dois anos depois, depois de muitas querelas envolvendo brancos e pretos em relação ao período de comemorações da festa – de início, entre Natal e Ano Novo, antecipada para o mês de outubro sob a imposição do conselho paroquial, alegando que a chamada data natalina é festa de brancos…
Pois bem, pela primeira vez na história… o baile dos negros acaba antes mesmo de iniciado. Mal se iniciara, melhor dizendo, aos primeiros acordes de uma melodia sucesso em todo hit parede internacional.
El Presidente, sucesso do hit parede internacional que abria os bailes comandados pela banda de jovens paraibanos, para na metade dos primeiros solos… como se fossem o toque de recolher, o clarin de uma corneta em saudação de réquiem a um herói!
Quem estava dentro do clube, estranha a parada repentina na execução da música, quem estava fora, nas calçadas e imediações, quase não percebe a interrupção, porque os estampidos das armas e a correria e gritos da multidão em pavorosa impediam até de alguém, nesse momento, raciocinar o que estava acontecendo.
A única saída, na hora e depois do cessar fogo era correr o bastante, fugir a passos largos o quanto mais distante do local. Portando, ninguém dormira mais, mesmo a situação estando sob controle.
Mas, cadê a Polícia?
Ela, que, estranhamente, se afastara do local momentos antes de eclodir a emboscada ao médico e ao amigo, supostamente, para deixar o campo aberto, livre e desimpedido para facilitar a ação da malta assassina, não age com rapidez e eficiência nas investigações ou perseguição aos pistoleiros.
Tarda um pouco para cair em campo. Um jovem estudante de sobrenome Veras está alheio aos acontecimentos de minutos antes, não ouve tiros, mas lembra:
- Eu estava em um parque de diversões quase em frente à Rádio Rural quando “Seo Joaquim Fernandes”, presidente do Caicó Esporte Clube passa apressado em direção á praça do Rosário para atrás da Polícia.
O que aconteceu “Seo Joaquim”. Ofegante, semblante carregado, quase inaudível, responde:
- Acabaram de matar Carlindo e Aníbal, e tem muita gente ferida!
Então, corri pra lá também, e cadê dormir mais. Ora, a festa da pracinha acaba na hora, para tudo e o povo fica estarrecido, quase não acreditando na versão contada pelo presidente do clube.
Noite mal dormida, de uma população sobressaltada, quase incrédula com o que acabara de ouvir.
Aos primeiros raios solares da manhã de domingo, muita aglomeração por toda a cidade, principalmente em torno do prédio da Prefeitura de Caicó, local do velório. A Região se movia em direção ao local da tragédia, caravanas de seridoenses começam a chegar, os políticos também.
Assembléia Legislativa se instala em torno dos ataúdes. Prefeitos, vereadores, deputados, enfim, políticos de todo o Estado se revezam no adeus ao líder político. Olhares se cruzam, mas a pergunta é uma só:
- Quem são os mandantes? Ninguém sabe, ninguém viu, sequer identifica os autores da chacina.
Apenas suspeitas dos mandantes, por parte dos amigos e correligionários do deputado. Suspeitas que intrigam, ameaçam, põem mais lenha na fogueira, e que envolvem políticos locais e inimigos, agora declarados, do jovem político assassinado.
Alguma relação com o caso Onaldo? Sua morte prematura, inconseqüente, de tocaia, acontecida há pouco mais de um ano tem alguma ligação?
Nesse período, de final de junho de l966, até os acontecimentos recentes, com as acusações cada vez mais pondo o doutor e agora deputado Carlindo Dantas como epicentro central e presente na cena do crime, espera-se de tudo, de todo o tipo de insinuações, acusações a ele e a outras pessoas.
Portanto, mesmo se elegendo deputado estadual, Carlindo não era inocente para a família de Onaldo e, o mais grave, tem os seus dias contados. A vingança está por vir, a qualquer momento.
O signo da violência está em curso, mais vítimas tombarão!
O SILÊNCIO COMO TESTEMUNHA?
A situação estava cada vez mais confusa, perigosa, para o deputado, sem papas na língua, polêmico, desafiador. Nas últimas semanas, desafiava os inimigos para provar sua participação no crime de Onaldo, e os instigava, até, insinuando que já sabia quem eram os autores da morte do colega médico e da trama acusatória contra ele próprio.
Na sexta-feira, na AL, é veemente em sua defesa radical em suas acusações:
- Foram eles que mataram o doutor Onaldo!
Acusações repetidas em depoimento gravado na rádio Brejuí,de Currais Novos, mas, estranhamente, silenciadas, dia seguinte em Caicó: Carlindo não vai a rádio Rural, passa o dia bebendo com os amigos mais chegados, como Aníbal, Darci Fonseca e Nelson Queiroz.
- Não revela nada pra gente! – garante Queiroz, promotor de Justiça em Jucurutu.
- De concreto, nada acrescenta ao que já supúnhamos – faz coro Fonseca.
Mas, o advogado Francisco de Assis Medeiros, doutor Chiquinho, reforça a versão dos amigos, embora acrescentando que também estivera com ele em seu escritório e na residência do mesmo.
- Não tenho dúvida alguma em afirmar que, no sábado à tarde, 28, ao ir ao meu escritório convidar-me, apreensivo e nervoso, para que eu o acompanhasse, naquele mesmo instante, até a sua residência, sob alegação de que tinha importantes, urgentes e reservadíssimos assuntos a tratar comigo, desejava consultar-me sobre como deveria proceder para tornar públicas as pistas seguras que o tinham levado a identificar o verdadeiro autor do assassinato de Onaldo.
Doutor Chiquinho prossegue:
- Em conversas anteriores, ele já tinha dado a entender estar de posse de informações seguras e contundentes, suficientes para desvendar o crime e por na cadeia o seu autor.
Disse faltar à confirmação de alguns pontos, e que só me daria conhecimento de tudo quando tudo estivesse mais do que comprovado, pois depois de ter sido preso, jamais cairia em esparrela.
Como se verá adiante, era o que ele realmente me queria revelar naquela tarde, mas que não foi possível, dada a chegada naquele momento inesperada de uma pessoa que contratara para executar consertos e mudanças nas fechaduras e ferrolhos das portas e janelas de sua casa no bairro Penedo.
Doutor Chiquinho conclui:
- Remarcamos a conversa para o dia seguinte. Mas, no domingo, ele estava morto!
QUEIMA DE ARQUIVO?
Francisco Godofredo Fernandes mantém uma casa de jogo de baralho na avenida Cel. Martiniano, no centro da cidade. Carteado pesado, caro, reúne a nata grossa dos apreciadores do pif paf. Carlindo Dantas é um deles, junto com o seu inseparável amigo Napoleão Ajácio, mais conhecido como Nego Napoleão.
Moreno alto e forte, fama de valente e bom atirador, principalmente depois de se envolver em tiroteios em cabarés da cidade.
Mas isso é coisa do passado, tempo em que seu amigo do peito, Carlindo Dantas estudava medicina em Recife. A amizade veio, tempos depois, a partir do momento, já nos anos 60, Carlindo já médico, retorna da capital pernambucana, instala seu consultório em Caicó, e divide suas atividades profissionais no Hospital do Seridó, administrado pela Fundação Sesp.
A dupla tem algo em comum, além de farrear e jogar carteado: é ligada politicamente ao senador Dinarte Mariz. Inclusive, já em 1962, o médico participa ativamente da campanha política da UDN-União Democrática Nacional, liderada pelo ex-governador, agora candidato ao Senado, dos também médicos Milton Aranha Marinha, ex- Prefeito, que concorre à uma vaga na Assembléia Legislativa, e Francisco Gomes, o “doutor Gatinho”, candidato à Prefeitura.
Dinarte e Marinho se elegem, mas Gomes não tem a mesma sorte do seu companheiro de chapa Ridalvo Costa, que se elege junto com o candidato do PSD, José Josias Fernandes. À época, podia-se votar no candidato cabeça de chapa (presidente, governador e prefeito) de um lado) e no vice de outro partido ao mesmo tempo. Exemplos recentes: em l960, Janio Quadros, o homem da vassoura, derrota o marechal Henrique Teixeira Lott, mas não consegue levar para Brasília o seu candidato a vice, Milton Campos.
O eleito é João Belchior Goulart, o Jango, também apoiado pelo então presidente Juscelino Kubistchek.
Carlindo, polêmico, mas de grande carisma, toma gosto pela política, porém sente que a sua vez, quem sabe, já em l966, está próxima. Sempre ao lado do Nego Napoleão, participa também da campanha de l965 no apoio ao senador Dinarte, que é derrotado pelo conterrâneo Monsenhor Walfredo Gurgel e, mesmo assim, já se lança candidato a candidato a deputado estadual.
Milton Marinho sente sua liderança local ameaçada. DM volta ao senado, mas não gosta da atitude do jovem correligionário.
Carlindo e Napoleão participam da festa junina de 29 de junho de 1966 no Grêmio Social e Cultural de Caicó, que também contou com a presença do doutor Onaldo Queiroz, que demora pouco no local. A dupla de amigos sai um pouco depois.
Um tiro fatal, disparado à pouca distância, à queima roupa, acaba com a vida do então diretor do HS, quando este dorme em uma rede armada no primeiro vão do prédio do Posto de Saúde, na rua Renato Dantas. Ninguém escuta o estampido, muito menos o doutor Severino, companheiro de “república”.
Também no Quartel de Polícia (e delegacia também) colado ao PS, não se ouve o eco de tiro, inclusive, pasmem, o policial da guarda não escuta nada.
Carlindo aparece como o principal suspeito e, junto com ele, o inseparável Napoleão. Carlindo Queima as armas em uma fábrica de molas, Napoleão, por conta de um cigarro, mata, à queima roupa, quatro dias depois da morte de Onaldo, Josias Bezerra, seu companheiro de jogatina no carteado de Chico Godofredo.
O crime é de grande repercussão: a vítima é sobrinha do Prefeito Inácio Bezerra. E o autor da façanha também é suspeito de participar da morte de Onaldo, inclusive, chega-se a comentar que ele teria sido sondado a dar o tiro no médico, mas, de última hora, recusa:
- Não atiro em ninguém dormindo!
Mas, quem ouviu essa declaração?
Quem viu Napoleão e Carlindo juntos em frente ao Posto de Saúde ou perambulando pelas imediações?
Mas por que Napoleão assassina friamente Josias?
- Por que ele conversava muito, e pode ter visto Carlindo e Napoleão juntos próximos ao palco do crime – insinuavam os adversários dos dois amigos.
Para reforçar a tese de autoria da tragédia, outros lembravam que Josias sempre saia da casa de jogo por volta das quatro horas da manhã. E, como morava na Barra Nova, sempre passava pela frente do Quartel de Polícia e, consequentemente, também em frente ao Posto de Saúde.
Daí, a sua eliminação. Pura queima de arquivo – aludiam as pessoas.
Ninguém aparece para testemunhar contra os dois. Porém, o assassinato, a sangue frio, de Josias, é um sinal complicador para os dois, principalmente para Carlindo, o peixe maior que os adversários querem fisgar a qualquer preço.
Napoleão é preso. Carlindo, logo a seguir, também, mas, nada provado, é liberado, disputa e ganha a vaga à AL, porém o amigo fica trancafiado, sendo julgado um ano depois, em Júri Popular que agita a cidade.
O fórum criminal funciona exatamente no Salão Nobre da Prefeitura e o Prefeito é Inácio Bezerra de Araújo, tio de Josias. Situação constrangedora. O Ministério designa o jovem adjunto de promotor Artur Marinho (sem parentesco nenhum com o juiz João Marinho da Silva, amigo de Carlindo Dantas) e a família Bezerra, capitaneada por Inácio, contrata o advogado José Rocha como assistente de acusação.
Os irmãos advogados José Cortez e Benvenuto Pereira de Araújo, este deputado e colega de Carlindo Dantas na Assembléia Legislativa defendem o réu.
O prefeito também contrata a única emissora de rádio da Cidade, a Rural, para transmitir o julgamento. Coube a mim a cobertura do evento, o mais longo e emocionante, principalmente pelo desempenho do jovem promotor. Desconhecido nos meios forenses da cidade, Artur Marinho rouba a cena do espetáculo, enquanto Cortez Pereira e Benvenuto, o Benga, decepcionam, com pífia atuação.
Uma multidão dentro e fora do prédio da Prefeitura acompanha a sessão do júri popular, a cidade toda sintoniza a Rádio Rural, que registra a maior audiência de sua história. Réplica, tréplica, e o povo vibram cada vez mais com a atuação do jovem promotor de 24 anos que, inclusive, provoca suspiros entre a galera feminina.
No final, Napoleão é condenado. Seus amigos ficam decepcionados com o resultado, embora não se manifestem pelo fato de também serem amigos do Prefeito Inácio Bezerra de Araújo.
Carlindo não aparece na Prefeitura, prefere se manter à distância do local. Três meses depois, é assassinado, e Nego Napoleão é privado de assistir aos funerais do amigo exatamente por estar trancafiado no Quartel de Polícia.
A cidade se pergunta:
- Será que, agora, Napoleão vai, finalmente, abrir o jogo?
O imaginário popular cada vez mais apresentava suas versões. Uma delas, a principal, dava conta de que Napoleão contava detalhes da morte de Onaldo e apontava Carlindo como o autor. Ele, mesmo condenado e preso, dava suas escapadinhas, sempre em companhia do sargento Umberto, um alagoano exportado da polícia alagoana, ninguém sabe por que e para que, e introduzido na nossa PM com a mesma patente.
Umberto tem fama de valente, matador de gente, mas conquista amizades influentes na cidade. Certa noite, porém, na “pensão de Dona Maria Neves”, os dois se desentendem. Brigam pesado, mas a Polícia, chefiada pelo delegado interino, capitão Romildo, chega e acaba a farra, prendendo a dupla.
Dizem que Napoleão, além de perder as regalias, é severamente punido com uma tremenda surra comandada pelo próprio capitão Romildo, um sorridente pastor evangélico que não se separa de uma bíblia.
Tive de visitá-lo algumas vezes, mas sempre negava às revelações atribuídas a ele, acusando o amigo Carlindo no envolvimento da morte de Onaldo.
O sargento Umberto também é punido. Transferido para Natal, escafede-se para sempre. Meses depois, Romildo é afastado de suas funções (era interino, com o afastamento titular Major Durval Barbosa Siqueira).
O delegado-pastor evangélico é acusado, entre outras falhas graves, de não colocar policiamento em frente ou nas imediações do Caicó Esporte Clube, em 28 de outubro de 1967. Insinuava-se, portanto, de facilitar o trabalho dos Irmãos Letreiro.
A ÚLTIMA VIAGEM
Os corpos de Aníbal e Carlindo foram sepultados na segunda-feira, 30 de outubro, no Cemitério Campo Jorge. Contrita, emocionada, ainda sem entender o porque de tudo aquilo, uma multidão acompanha o cortejo, a pé, desde a sede da Prefeitura até à última morada dos inseparáveis amigos.
O cemitério, recém inaugurado, fica há dois quilômetros do centro da cidade. Parentes, amigos, admiradores, gente do povo que o tinha como pai da pobreza, correligionários que há menos de um ano o haviam escolhido como seu representante na AL, enfim, a cidade inteira, inclusive, pessoas declaradamente adversárias políticas, também acompanham o enterro.
Momentos de muita tristeza na hora do sepultamento: a despedida, carregada de forte emoção, dor e revolta pelas perdas do líder político de carreira meteórica, pouco mais de 09 meses de sua posse como deputado, e do empresário, paraibano de Picuí, que desde jovem morava em Caicó e havia se transformado em um grande conterrâneo – empreendedor e amigo.
Terminados os atos fúnebres, a multidão se dispersa, os da cidade voltam às suas casas, mas o comércio local continua com as suas atividades paralisadas. Os de fora, de cidades vizinhas, e de sítios e povoados do próprio município retornam aos seus lugares de origem.
Os comentários giram em torno do amanhã:
- O que ocorrerá ainda de hoje em diante? Haverá vingança?
- Primeiro, temos que descobrir quem são os assassinos e os mandantes!
No olho do furacão, a família Torres é a principal acusada como responsável pela tragédia que enlutou a região e abalou o Estado. Desde a noite do sábado que os correligionários de Carlindo Dantras, à frente o juiz João Marinho da Silva, o empresário Erasmo Bernardo da Costa, e os agropecuaristas Misael Teotonio Pereira e Darci Fonseca traçam planos de uma nova caçada aos pistoleiros e mandantes.
A caçada do sábado foi frustrada. Agora, eles tem pressa em apontar, pelo menos, os culpados. À boca pequena, falavam que os Torres, o deputado José Josias Fernandes e o médico Isauro Maia haviam se reunido com representantes da família Queiroz, na Algodoeira Seridó (propriedade dos Torres) para montar um esquema para eliminar Carlindo Dantas.
Mas, o industrial Manoel Torres e o deputado José Josias teriam se retirado da reunião por não concordar com mais derramamento de sangue.
- Mas, o complô permanece – reage um dos correligionários de Carlindo.
O caldeirão das futricas, intrigas políticas, ferve, com mais lenha na fogueira, com mais uma acusação: de que José Torres Filho, o Binha, inimigo declarado de Carlindo teria urinado e dançado em cima dos túmulos das vítimas. E, mais: disparado vários tiros de revólveres nos túmulos.
O caldeirão fica prestes a explodir: um tio do deputado, agropecuarista Vicente Carlos, que jurara vingança tão logo fossem descobertos os responsáveis pela morte do sobrinho se assanha todo.
Também os filhos de Aníbal, incentivados por alguns amigos do pai, ficam furiosos, e também prometem vingança, mas, no momento, são contidos por Dona Francisquinha, a viúva, e agora responsável pela reorganização da família – a maioria de menor idade.
Nilzon é o mais velho dos homens, apenas 20 anos. Cabe a ele, a partir de agora, gerir os negócios da família Cunha Macedo, que mantém sociedade em uma usina de beneficiamento de algodão e uma revendedora de automóveis, em Caicó, além de propriedades rurais em outros municípios.
O primo deles, Francisco Sales da Cunha, também de Picuí, mas, vereador em Natal, homem experiente e de paz, também contém os meninos, mas até quando?
Nesse clima de comoção, de intranqüilidade, o tempo vai passando, mais acusações e suspeitos vão surgindo. Os meninos de Aníbal crescem, mas não amadurecem, e cada vez mais são empurrados para o lado errado, fazendo o jogo, agora, só dos verdadeiros mandantes.
Mas, quem são eles?
TIRO NO ESCURO
O ano de 1964 repete o excelente ciclo de chuvas iniciado final da década de 50, depois da terrível seca de 1958. Os anos 60 começam promissores, mas muitas enxurradas, trovoadas, arrombamentos de açudes e grandes represas em todo o Nordeste.
A região do Orós, no Ceará, a barragem do mesmo nome, que já havia arrombado bem antes, transborda e, mesmo, mesmo o sinal de televisão restrito apenas a Recife, os boatos de um novo rompimento da maior represa de água nordestina se espalham em todos os Estados da região.
As notícias espalham medo e apreensão, causam arrepios as previsões agourentas do imaginário popularesco que, de boca em boca, criam a mesma ameaça aterradora para o Seridó:
- O Itans está a perigo!
-As paredes estão cheias rombos. As águas já estão encostando no “Chapéu” (a porta dàgua), quase lavando as paredes (as partes de cima).
- Gargalheiras sangra com quase dois metros de altura e, quando os rios Seridó e Barra Nova se encontrarem depois do Acampamento, vamos ter uma cheia maior do que a de 24 - profetizam Toínho de Zé Evaristo, Tampinha e Cidinha, o marinheiro, navegador de sete mares, experts em muitas águas que passarinho não bebe.
- Vamos lá pra ver – exultam os pelejadores da cena sertaneja, no momento, de águas abundantes, chão encharcado, relva verdejante, cheiro de mato molhado e florido, e uma multidão os acompanha até pra lá da Baixa do Arroz, que também já foi Alvorada.
Os automóveis são raros, não congestionam a rodagem nova – a pista de borra de petróleo recém construída pelo Governador Dinarte Mariz com a ajuda do Presidente JK. Portanto, os caicoenses passam sebo nas canelas ou selam o Tejo em lombos de animais, bicicletas ou em meias dúzias de Vespas e lambretas.
- Ou mundão dàgua pai-dégua – exclamam as centenas, ou até mais de mil pessoas.
- Dá inté vuntade de dar um morguio nessas águas barrentas — vibra o motorista Mané Boquinha, nosso vizinho.
Ninguém se cansa da caminhada. Vislumbrar uma paisagem rara, bela que a natureza proporciona ciclicamente, mais de adversidade climática do que de abundância, contagia a todos. Mas, chega a hora de voltar para casa.
A romaria de muita fé e religiosidade termina sempre na bodega de Manoel Abgail, homem duro, de moral, de voz grave, gestos firmes, mas uma grande figura humana. Para os amigos do peito, expõe sua generosidade, boca escancarada:
- É por conta da casa!
Faz uma pausa, olha de soslaio e identifica o filho do seu amigo Júlio Rodrigues se aproximando, já no pé do balcão:
- E tudo já bebe, bichim?
- Um pouquinho… - Mas, isso é tamãe de gente?
Porém, a história é outra.
O por do sol da penúltima segunda-feira do ano que passa rápido mas não acabou ainda reflete nas nuvens do nascente, carregadas de nuvens, e o encontro forma um arco íris de beleza colossal, indescritível, somente visto pelos beiradeiros e pé de serra. A brisa abunda dos altos do Samanaú ( por que mudaram o nome da Serra para São Bernardo, que é raça de cão na Europa? Deve ser coisa de gente ignorante, ingênua, fruto de lavagem cerebral da igreja!).
O cenário é uma beleza, os barzinhos se entopem de gente de todas as brenhas, de todas as tribos e locas de pedras. O do velho e ribento Miguel Cornim, na esquina da rua do Cacete Armado, entrada da cidade, também.
O médico Pedro Militão, olho no cenário visto de longe, de todas as partes, volta de São João do Sabugi, dirigindo uma possante e nova Rural Willys, de cor verde como o tempo presente e de cores da bandeira política que também desfralda.
Pega um trecho de asfalto do Itans à entrada da cidade. De repente, quando irrompe na estrada piçarrada, um tiro ecoa no ar e um projétil ricocheteia no para brisa do seu automóvel. A brecada inesperada canta pneus.
Militão livra-se de cacos de vidros, visualiza o local da partida do estampido, desce do veículo, arma em punho, dirige-se ao local da partida do estampido. Passadas lentas e decisivas, de um corpanzil vestido de branco e espumando de raiva.
Mal chega ao bar, o livre atirador se denuncia:
- Foi sem querer, doutor!
São quatro a sorver uma branquinha estupendamente gelada, mas o médico não conversa, age rápido – rende todos e os coloca na mala da Rural Willys. Por mais que Delmiro Saldanha, o Diabo Louro, guru da rapaziada, todos seus parentes, esbraveja, Militão leva a turba para a delegacia de polícia e a entrega ao truculento Capitão Durval, o delegado.
E, por mais que exigisse punição rígida para os cabras, tudo termina em pizza, aliás, em nada, porque a iguaria de origem oriental da terra Mao Tse Tung (e não italiana) ainda não chegara aos nossos tabuleiros.
Ora, ora, o “Diabo Louro” era do cordão encarnado, assim, com o doutor João Marinho da Silva, juiz de direito da cidade, e com o renomado advogado Francisco de Assim Medeiros, o doutor Chiquinho, de aspirações políticas ambiciosas.
- Vigi, danasco de homem brabo é esse! – admira-se Pedro Cabeludo, jovem tropeiro em serviços de calçamentos e que mora em um casebre em frente.
Mas, a história serviria, anos depois, em demistificar o herói imaginado pelo braçal.
Como herói e vilão mantém uma relação de amor e ódio, ambos morrem no final da fita!
CLÃN DOS DESVALIDOS
Carlindo e Aníbal, amigos de nossa família, capitaneada pelo meu pai, Júlio Rodrigues. Macedo mora por traz de nossa casa, o médico deputado, por algum tempo, na praça José Augusto. Porém, éramos mais intimamente ligados a Carlindo Dantas devido às disputas eleitorais.
Em 1966, disputamos o pleito, pela primeira vez. Ele, se elegendo a deputado estadual e, eu, a vereador, estourando nas urnas. Mesmo na ARENA, a exceção do meu nome, votei de cabo a rabo no MDB – Odilon (Senado), Ney Lopes (Câmara Federal) e Geraldo Queiroz (Assembléia). Apenas, o último se elegeu.
Retornando a Carlindo: juntos com o locutor Samuel Fernandes e outros colegas da Rádio Rural, viajamos algumas vezes por várias cidades do Seridó a partir do início de 1966 com o médico já fazendo contatos políticos em busca de apoio à sua sonhada candidatura a deputado estadual.
Inclusive, no sábado de carnaval, bebemos com ele e o doutor Nelson Queiroz no bar de Waldemar, localizado em plena “feira das frutas”. Dia seguinte, aceitamos o convite e todo o bloco da rural encheu a sua casa para degustar uma buchada de miunça.
Cana grande: Carlindo preparou, em um panelaço de alumínio, um coquetel daqueles de “matar o guarda”, misturando todas as bebidas de sua adega: uísque, cachaça, vinho, cinzano, conhaque de alcatrão, cerveja, champanhe.
Um litro de cada marca, com muito gelo e um pouco de molho de pimenta malagueta. Gelo à vontade. E, para provar aos poucos beberrões que o coquetel “é fraquinho, mas gostoso que nem baba de moça”, enchia um concha e despejava em seus próprios olhos.
Uma cena hilária acontece: um papangu, montado em uma jequinha, entra no jardim da casa, Carlindo o avista e o convida para entrar. O folião não contou conversa, mas ao chegar a sala, exageradamente lustrada com cera, o infeliz do animal escorrega e cai ao chão, sobre o bebum.
Gozação geral!
Meses depois, Carlindo é citado, iniciado como o principal suspeito da morte do colega médico; preso, liberado, ganha a parada nas urnas, toma posse, mas seus dias estão contados.
Certo dia, em meados do fatídico outubro de 1967, a experiência e sabedoria de Júlio Rodrigues falam mais alto:
- Cuidado com essas viagens, pois Carlindo corre perigo!
Acerta em cheio.
Aníbal, desde o final dos anos 50, é assíduo freqüentador da confraria da Praça José Augusto, comandada pelo fazendeiro José Antonio da Costa. Quase diariamente, junta-se ao Majó Elóy Cesino de Medeiros, a Manoel Avelino da Nóbrega (Mané Boquinha), Chico Canuto e outros udenistas de primeira hora.
Quanto a Pedro Militão e Osvaldo Lobo, também médicos, o primeiro havia sido nossos vizinho e atende em consultório localizado no prédio da Ação Católica, onde também funciona a Rádio Rural, e o segundo mantém boa relação com o nosso pai. Quanto aos filhos de Aníbal, a nossa amizade vem desde os tempos de criança, adolescentes, principalmente com Nilzon e Anifrâncio, os dois mais velhos.
PRIMAVERA MANCHADA DE SANGUE
Ô tempão bom! Os anos 60 que, aliás, começaram no final dos anos 50, com a afirmação do rock de Elvis Presley, da música e o requebro banho de lua dos irmãos Celly e Toni Campelo, e do futebol brasileiro no Mundo, comandado pelo endiabrado Mané Garrincha, nos premia também com a bossa nova de João Gilberto, Vinícius e toda a turma do samba com uma nota só, ironizada pela elite do momento como “samba quadrado”.
A libido desperta turbilhão de paixões, paquera-se e namora-se a toda hora. A pracinha do Coreto, mesmo não sendo época de festa da padroeira, sintetiza a Liberdade das gerações do pós-guerra.
Sem essa de cerceamento do direito alienável de ir e vir. Moças para um lado, rapazes para o outro, em um carrossel de emoções e paixões que parava muitas vezes na escura salinha do cinema Pax. Ah, como o amor juvenil é lindo!
Política-institucionalmente, os anos 60 são de chumbo grosso, ditadura pesada, mas somos felizes e não sabemos, bicho, é uma brasa mora! Nada de brigas, de armas e drogas. O clima é de faça amor e não faça guerra. Alguns dos nossos ficam á beira do caminho, como canta o tremendão Erasmo Carlos.
Saudades, muitas saudades do que ficaram para trás; Zépaminondas, Farofa, Da gata, dlorizeu, Zébedeu, Nego Rejo, Jaime Treme-treme, e tantos outros amigos. Seguimos em frente, até que, de repente, aconteceu: a madrugada de comemoração da estação das flores, da alegria e dos amores nos reserva um novo amanhã de impacto emocional de muitas lágrimas e dores, comoção e revolta.
Nilzon não merecia!
E nós também. Mãe, irmãos, primos, aliás, a cidade toda, a região também. Amigos dos tempos dos rachas nos campinhos de terra batida, dos banhos de rio, de baladeiras na mão, de incursões noturnas.
Emoção que envolveu também os colegas de trabalho, do mais novo ao mais antigo comerciante da cidade. Nilzon é um deles, no escritório, no balcão, no atendimento aos clientes da revendedora Wolks, a qualquer hora em qualquer lugar.
Desabrochando para a vida, 22 anos, cheios de planos e responsabilidades. Manhã de uma primavera manchada de sangue. Dor e revolta. Impacto forte, horas, dias intermináveis, noites indormidas, indagações sem respostas. Ou quase:
- Foram vocês!
Cara a cara, olho no olho, dedo em riste, voz embargada, sentencia o agora irmão mais velho, o jovem Anifrâncio, fazendo tremer o frio e perverso delegado. O que parecia ser um iceberg, uma montanha de gelo, começa a derreter interiormente.
Questão de horas, dias, o desmoronamento total. Falta apenas alguém de coragem suficiente para desenlaçar o novelo, desvendar o mistério. E o momento chega, revelador, cruel, avassalador, verdadeiro:
- Eu vi. Foram eles, comandante!
A SÍNDROME DA VIOLÊNCIA
A sucessão do Prefeito Inácio Bezerra de Araújo é deflagrada mal são enterrados os mortos. Previa-se, desde então, que seria uma das mais acirradas e radicais campanhas da história política de Caicó, porque os dinartistas contam com um apelo muito forte emocionalmente para arrasar os seus adversários: a chacina em frente ao Caicó Esporte Clube.
Teme-se, inclusive, em mais derramamento de sangue envolvendo, principalmente, as famílias litigantes. E o último dia de l967, esquenta ainda mais o clima de medo e apreensão já reinante na cidade: Mais três assassinatos de pessoas conhecidíssimas e moradoras em Caicó.
A nova chacina acontece em Lajinhas, povoado à cerca de 20 quilômetros da sede do município. O jovem Chiquito Queiroz, aproximadamente, 20 anos, não gosta dos rumores de um suposto caso amoroso envolvendo uma irmã sua, viúva, com o agropecuarista Barra Lopes e o procura para tomar satisfações.
No meio do caminho, João da Mata e Melonias interpõem-se entre os dois. Chiquito antecipa-se à dupla, saca e os mata. Dois filhos de da Mata, Aldo e Armando, o Bentivi, também participantes de uma festa de vaquejada, são avisados, saem à procura do assassino, o encontra e o desfecho são inevitáveis:
Chiquito, já ferido e sem balas no revólver, é agarrado por Aldo, o mais velho dos irmãos, e Bentivi termina o serviço.
Final de tarde de domingo, último dia do ano de l967, os três corpos são postos sobre a carroceria de um caminhão e removidos para o Quartel de Polícia em Caicó. O veículo entra em marcha lenta pela antiga Avenida Serra Negra, agora rebatizada como Carlindo Dantas, que morrera a dois meses, também assassinado.
O caminhão para em frente ao Microbar, de Luiz Venâncio. Todos os freqüentadores deixam, por instantes, a bebedeira, e se dirigem para fora do bar matar a curiosidade. Eu sou um deles.
O enterro, claro, é no dia seguinte, dia de Ano Novo, considerado de paz e harmonia e da confraternização universal. Mas, a carnificina da tarde anterior em Lajinhas soa como um mau presságio para o ano que se inicia, haja vista tratar-se de um ano eleitoral em que as forças políticas antagônicas ainda não ensarilharam as armas.
Claro, que as mortes não tem nada a ver com os crimes do passado, mas a maioria dos caicoenses, cada vez mais sobressaltada, em permanente estado de atenção e medo se pergunta:
Haverá um novo banho de sangue?
Assim, população temerosa e indefesa começa l968 bem no epicentro da refrega política já posta na rua. Nos dois primeiros meses, já de delegado novo, nada de grave acontece, mas basta o primeiro incidente envolvendo a polícia e alguns jovens foliões para a população entrar em estado de alerta.
Por alguns minutos, talvez no máximo uma hora, forma-se uma praça de guerra em pleno centro da cidade.
Comemora-se o “centenário de emancipação política” do município que, na realidade, acontecera quase duzentos anos antes. Então, tudo que acontece na cidade tem a marca “centenário”.
O primeiro grande evento festivo do ano é o carnaval, quer dizer, “Carnaval Centenário”. A Prefeitura investe pesado, patrocina quase tudo que diz respeito ao período momesco. Formam-se mais blocos, de elite e ala ursa, escolas de samba, troças e tudo o mais que o folião tem direito.
A alegria é geral, contagia a todos, parece até que o trauma com as tragédias do ano anterior já era.
Mas, na segunda-feira, final de tarde, reacende o sinal de alerta: um jipe dirigido pelo jovem Polion Torres Filho, o Júnior de Polion, transportando membros de um bloco carnavalesco (Apaga Fogo) sai do corso em direção a uma das bombas de um posto de gasolina localizado na avenida Cel. Martiniano.
Coincidentemente, outro veículo, agora da Polícia Militar, também resolve abastecer. Os dois veículos quase se chocam, as discussões começam, os motoristas e ocupantes descem deles, discutem, altercações ameaçadoras, empurra par a um lado, empurra para o outro, Junior dá um chega pra lá mais forte no (me parece) sargento Mário Figueiredo, este reage mais violentamente ainda e terminam todos levados para o Quartel-Delegacia.
Os que couberam foram nos veículos, o restante rebocado por policiais. Em frente ao Quartel, o clima esquenta, com a chegada de uma multidão que se desloca das proximidades do palanque oficial do carnaval, o logradouro em fica tomado de gente. Binha Torres, primo de Júnior, tenta romper o cerco policial, mas o soldado conhecido por Pedrão o impede, aliás, chega a agredi-lo fisicamente.
De repente, quando a situação já está ficando incontornável, o estrondo de um trovão faz a multidão tremer de medo e a forte chuva que começa a cair provoca a fuga dos curiosos e brigões que lotam a praça de guerra. Então, entre mortos e feridos, salvam-se todos.
SEMPRE CARNAVAL
Pela primeira em sua história, a cidade é brutalmente agredida à bomba! Bombas de gás lacrimejantes jogadas pelos policiais na multidão que se aglomerara em frente ao Quartel de Polícia, localizado à Rua Renato Dantas, e adjacências, no mesmo quarteirão onde fica o prédio do Posto de Saude, onde o médico Onaldo Queiroz fora covardemente assassinado há quase dois anos.
Em vez de confetes e serpentinas, o novo delegado, coronel Genival Otaviano, manda dispersar os manifestantes que protestam contra a pancadaria e a prisão de foliões detonando as chamadas bombas de efeito moral.
A brutalidade policial atinge em cheio o próprio carnaval, que transcorria normalmente. O tradicional corso carnavalesco perde o brilho e o ritmo, o mesmo ocorrendo com o desfile das troças de papangús e os blocos de elite em exibição pelas principais ruas da cidade. Mas, o animo dos carnavalescos ressurge horas mais tarde quando os clubes sociais reabrem suas portas e salões para os alegres pierrôs e colombinas.
Pico final é na terça-feira com os desfiles oficiais do tríduo carnavalesco, com todos utilizando o mesmo percurso, demarcando o mesmo espaço, agora, sem praça de guerra. Mas os participantes temem por uma reação da polícia, um pouco afastada da multidão, a qualquer gesto de provocação.
A família Torres sente-se com a honra ultrajada e resolve reclamar ao bispo. Ou, melhor, ao Monsenhor Walfredo Gurgel, o Governador do Estado, e seu líder maior. Os adversários políticos locais comemoram o entrevero, gozam a situação:
- Estão pagando na mesma moeda.
Lembrai-vos do passado recente, quando das mortes de Carlindo e Aníbal, trucidados à porta de um clube, durante uma movimentada festa, totalmente desprotegida de segurança policial, como se o quadro estivesse sido desenhado exatamente para facilitar a ação dos pistoleiros.
- Aqui se faz, aqui se paga!
O oficial PM, delegado, é chamado a Natal. É exonerado. Dias mais tarde, se diverte em um dos restaurantes da capital, o Granada Bar, em pleno Centro, chega o comerciante Sebastião Torres, tio de Polion Júnior, e descarrega toda a sua raiva sobre ele. Mas, os amigos de primeira hora dos dois intervêm e contornam a situação.
Uma viagenzinha de carona ao sul maravilha, no caminhão de José Modesto e ao lado de Cacá Mariz, não faz mal a ninguém. Ao retornar, quatro meses depois, Caicó já conta com um novo delegado, agora, em definitivo, a não ser que…
É o tenente Francisco Libório dos Santos, com fama de durão, que deixa claro em de suas primeiras ações na cidade. O magarefe conhecido por Severino Diná enche a cara nos bordéis da cidade, pega o seu caminhão e sai em disparada em direção ao centro.
Na avenida Cel. Martiniano, faz seu show particular: em alta velocidade, e em horário de expediente comercial, repete o percurso várias vezes, do Alto dos Crentes ao prédio novo do Banco do Brasil.
A população treme nas bases e teme por uma nova tragédia, agora, protagonizada, não mais por um pistoleiro, e, sim, por um motorista irresponsável, totalmente embriagado.
De repente, Libório intervem, e põe freio às manobras radicais do piloto irresponsável. Os presentes o aplaudem e segundo comentários de pessoas com livre trânsito na Polícia, o delegado aplica-lhe uma tremenda surra. Verdade ou não, o certo é que Severino toma juízo e para de beber…
A partir daí, mal é visto dirigindo pelas ruas da cidade. Resume a sacrificar seu gado, desossá-lo e comercializar as carnes da boiada nas feiras livres de Natal. Severino não é má pessoa, mas suas carraspanas são homéricas, violentas. Aliás, eram, até “são Libório” se investir nas funções de delegado local.
CAMPANHA NA RUA!
Mal retorno de São Paulo, fico sabendo das novidades políticas da terrinha: o pela bucho Mané Panela e o fechador Burra Cega vão se enfrentar nas urnas em l5 de novembro. Briga feia dentro da própria Arena.
O ex-deputado Manoel Torres de Araújo (Bandeira Verde, da Cruzada da Esperança) e o combativo advogado Francisco de Assis Medeiros, o Doutor Chiquinho, desfralda o Vermelho, curiosamente, o símbolo do regime comunista no Mundo inteiro, mas, coincidentemente, no Rio Grande do Norte, identifica os seguidores do Senador Dinarte de Medeiros Mariz.
O próprio DM, quando em Brasília, vê fantasmas comunistas em plena luz do dia, mas, aqui no Estado, ele os protege, e os comunistas os adoram. Retirou muitos deles da cadeia, dos porões da ditadura, mas ajudou muito mais os seus principais líderes, como o ex-prefeito Djalma Maranhão, cujo desejo, no exílio no Uruguai, era de um dia voltar a Natal para sempre.
E voltou!
Dinarte atende-o, pós morte, ao conseguir trazer seu corpo do Uruguai para sepultá-lo no cemitério do Alecrim. E Iran Pereira, líder de esquerda, militante, desde os tempos dos seus primeiros estudos em Caicó, e ex-deputado federal Constituinte, cassado, perseguido e preso tão logo eleito na “redemocratização” de 46, o que se constitui em uma grande piada.
Quem já viu cens ura, cerceamento de pensar, se defender, agir, proibição do direito de ir vir em regime democrático?
Somente, no Brasil, acontecem esses tipos de idiossincrasia!
Liberado dessa vez, Iran, que também era jornalista, advogado, escritor e dramaturgo, vira buracrata nos escritórios das empresas de Dinarte Mariz, mas permanecendo com os se
us velhos ideais.
Com a nova ditatura, de 1º de abril de 64, torna-se, novamente, um proscrito politicamente, perseguido, preso, torturado e morto, sem que, dessa vez, o senador conterrâneo pudesse ajudá-lo.
Por isso, a relação de pouca raiva e muito mais amor nutrida pelos comunistas potiguares a Dinarte Mariz. Talvez, por isso, também, o porquê da cor vermelha como bandeira de luta e política dos seguidores do velho senador “do coração do povo”!
O próprio doutor Chiquinho, nos tempos de estudante de Direito, já desfraldava com ardor a bandeira vermelha, não a empunhada pelo Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes, também eleito e proscrito da vida pública antes mesmo de tomar posse no Palácio Monroe.
Mas, a nova bandeira vermelha que tremula no Caribe, a de Castro e Che Guevara, símbolo da conquista da vitória do povo na Ilha de Cuba!
E o Doutor Chiquinho, tão logo regressa a Ca
icó no final dos anos 50, já vai conquistando a simpatia e admiração da estudantada local, liderada por Manoel Gonçalves de Medeiros, o “Homem Doido” e Paulo Celestino da Costa. Coincidentemente, admiradores do dinartismo.
Encontrei-os, de pronto, de caras limpas, embevecidos pelo carisma e a oratória do professor e jovem advogado, inclusive, meu amigo, amigo da nossa família, quase vizinho nosso na praça Doutor José Augusto.
Mas, não entrei na onda dos colegas. Não obstante, meu pai, Júlio Rodrigues, e toda a família Rangel, da minha mãe, são dinartistas de carteirinha, de primeira hora, portanto, sou o único dissidente, uma espécie de “Ovelha Negra”.
- Depois que voltou do Recife, Tinine virou comunista! – acusavam.
Mesmo sendo eleito vereador pela Arena, em l966, por um acidente de percurso – Paulo e Pedro Celestino, Pedro Abel, Ítalo, Salomão Gurgel, tentamos fundar o Modebra, depois MDB, e nã o conseguindo, me infiltrei na ARENA e, com ajuda também do meu tio Paizinho Rangel, que deixava a política, consigo me eleger em terceiro lugar.
Mas, só votei em meu nome entre os candidatos arenistas. Cravei Odilon para o Senado, Ney Lopes (deputado federal) e Geraldo Queiroz (para estadual, aliás, o único eleito da trinca).
Bem, voltando à sucessão do Prefeito Inácio Bezerra de Araújo: tão logo reencontro Júlio Rodrigues, sou curto e seco:
- Pai vou votar em Manoel Torres!
A resposta do meu pai é surpreendente:
- Acho que também farei o mesmo!
Eu já desconfiava: nos últimos dias, o havia visto bebendo cerveja no Bar de Chico Melo, reduto de velhos bacurais, com Zé Torres, Sebastião, Bioto Teixeira e os “novos” Zé Quinino” e Chico Godofredo. Portanto, meio caminho andado…
Na festa de ex-aluno do Ginásio Diocesano, depois de um desentendimento com Júnior Polion, Binha Torres chega, apazigua os ânimos com uma cantada inesperada:
- Júnior, não queira briga com Caboré que ele vai ser o locutor de nossa campanha!
Semana seguinte, Manoel Torres vai a Rádio Rural e repete a cantada:
- Orlando, estou sabendo que você vota
coonsco. Vou falar com seu pai, agora mesmo, comunicando que vou contratá-lo para comandar a nossa campanha, certo?
Aceito o convite, mas ,com uma ressalva:
- Não precisa o senhor falar com ele, pois sou de maior, e meu pai não interfere no meu voto, nem na minha profissão. Inclusive, tende a votar no senhor.
Negócio fechado, e passo a ser paparicado pelos Torres velhos, porque os novos ja são meus amigos e companheiros de farras há muito tempo. E passo a partir de contratado, a beber também com a velha guarda da família, diariamente…
Porque a atitude de meu pai?
Doutor Milton Marinho, velho amigo de Júlio Rodrigues, médico da família há tempos, guarda fortes ressentimentos de doutor Chiquinho pelo fato de tê-lo abandonado politicamente, trocando-o por Carlindo Dantas na eleição de l966.
Enquanto Carlindo é o mais votado da região, doutor Milton se reelege com dificuldades. Marinho garante dar o troco, apoiado pelos amigos e, principalmente, pelo senador Dinarte Mariz.
Marinho libdra os amigos, entre eles, Júlio Rodrigues:
- Só voto em Chiquinho, se o doutor pedir!
O tempo passa, a campanha esquenta, já não há favoritismo. É pau a pau!
Dinarte Mariz cumpre a palavra de não ir a Caicó durante a campanha. O governador Walfredo Gurgel, seu adversário político também. Aluizio Alves, o m
aior líder político do RN e arqui-inimigo de Dinarte Mariz, esse, nem pensar.
Por que?
Pelo “simples fato” de os dissidentes do dinartismo migrarem para candidatura de Torres. E este, com a participação em sua campanha, mesmo sem ir a Caicó, temia perder o filão de votos advindos de Milton Marinho.
Nesse lenga, lenga, de Dinarte vai deixar para o final da campanha ou não vai, levando consigo Milton Marinho e sua trupe, o tempo esquenta de lado a lado. Nos programas de rádio e nos comícios, em toda a parte, doutor Chiquinho insinua que os adversários participaram da trama que matara Carlindo e Aníbal:
- Já temos a certeza de quem são os assassinos, mas faltam os mandantes, e estamos perto de desmascará-los!
A referência “mandantes” incluiria a família Torres, até porque já se comentava na região que os pistoleiros autores da chacina teriam fugiram a cavalo, após o tiroteio e se homisiado na fazenda do médico Osvaldo Lobo, em Serra Negra do Norte. E que o também médico Pedro Militão, também suspeito de envolvimento, eram amigos e eleitores da Arena Verde.
Já próximo ao final de campanha, Dinarte Mariz não resiste aos apelos de seus seguidores, principalmente, do velho Raimundo Carlos, pai de Carlindo, e resolve quebrar a jura, ao anunciar a sua presença no comício de 28 de outubro, aniversário da tragédia em frente ao Caicó Esporte Clube.
Milton Marinho chega primeiro e, com ele, a maioria de seus amigos e eleitores. Júlio Rodrigues também capitula, outros resistem.
O tom da campanha é o mesmo: a morte de Carlindo, um lado acusando, o outro na defensiva. E os fuxicos, boatos de toda a espécie correm pela cidade.Sou vítima de alguns deles.
PARA ENTENDER O CASO:
Como já escrevemos antes, estamos em l968. Ano de campanha política para a renov
ação dos Prefeitos em vários municípios do RN. Apenas dois partidos em disputa, um apenas como figurante, até porque o MDBa ainda continua sob domínio do senador Dinarte Mariz, que colocou laranjas em seu comando, como Ney Lopes, Gerôncio e o irmão Geraldo Queiroz; e a Arena, dividido em sublegendas Vermelha e Verde.
Os primeiros, fechadores, da vaga existente, os outros, bacuraus, pela buchos, remanescentes de perrepistas e liberais, dos tempos sangrentos de Mário Camara e Cel. Benedito Saldanha. Nesse clima de cores e temores, Caicó é o epicentro das atenções por conta do radicalismo político depois dos últimos e recentes acontecimentos violentos que se abateram sobre a população em 1966 e 1967.
Vivo, Carlindo é muito mais amado do que odiado, daí a sua estrondosa vitória nas urnas. Morto, o amor e o apego popular transcendem, fazem da vítima um mito, um ser de adoração, veneração, de milagreiro, recheadas de ódio e clamor por vingança.
Fetichismo político, em que se criam factóides. As mortes de 28 de outubro de 1967 ainda estão na memória das pessoas, no inconsciente coletivo. E levam ao fanatismo político, indesejável pelos caicoenses, que temem uma verdadeira vindita com muita violência, sangue e mortes.
Cria-se uma rede de intrigas: repito, sou alvo de alguns chafurdos, partidos dentro do comitê de campanha da Arena Vermelha, tentando jogar os filhos de Aníbal, principalmente Nilzon, Anifrâncio e Toínho contra a minha pessoa. Inventaram que eu sairia em uma passeata com um cartaz retratando o pai deles.
Os meninos checaram e me revelaram a farsa montada pelos adeptos do doutor Chiquinho. Lógico, eu simplesmente era o locutor do carro de som da Arena verde. Outra: com a decisão de meu pai retornar ao seu ninho antigo, a pedido de Dinarte Mariz, e forçar a minha saída do palanque de Manoel Torres para apoiar doutor Chiquinho, Júlio Rodrigues chega em casa ( eu ainda morava com ele) e faz o “alerta”:
- Você sabe que Chico Germano é nosso amigo e está por dentro de tudo que se passa na campanha. Então se cuida, pois chegou até ele a notícia de que Doidelo de Gaspar ( Ivan Fontes, responsável pelo nosso carro de som) vai lhe seqüestrar para fora da cidade e lhe matar, para botarem a culpa em doutor Chiquinho.
Relevei:
- Ô, meu pai, isso é invenção de quem já se sente derrotado!
Júlio Rodrigues fica mais fulo da vida comigo!
INTIMIDAÇÃO
Mesmo com a onda de boatos deflagrada pelos aspones do doutor Chiquinho, a campanha política se desenrola ordeira e pacífica. As ameaças partidas de ambas as partes não passam de tagarelice, ecoando de um palanque para o outro. Ou de simples discussões em bares ou nas esquinas do mercado, como se diz no interior.
Situação sobre controle, até porque o policiamento tem novo comandante e como fama de austero, mantenedor da ordem pública. Sabia-se, porém, que o tenente Francisco Libório é durão, violento, e traz como glória um crime de morte nas costas, praticado quando se iniciava na PM.
Nosso primeiro contato, Tetê a Tête, ocorre no “Galêgo da Barra Nova”, um bar freqüentado exclusivamente por José e Sebastião Torres e seus amigo mais chegados, os correligionários de primeira hora. Certo dia, já boca da noite, chegam Libório, sargento Mário e o escrivão Israel.
Este, sentado entre os dois PMS, acena em minha direção e faz o convite:
- Orlando, o delegado quer lhe conhecer!
Apesar da presença de Mário, de antigos entreveros, atendi o chamado.
Após os cumprimentos de praxe, sentei-me, mas o diálogo é curto e grosso. Libório, olho no olho, eviscera-se:
- Eu já sei que você gosta de falar mal da Polícia, mas comigo é diferente!
Tiro de letra:
- Desde que não faça por onde!
Levanto-me e volto à mesa de origem…
Felizmente, ao longo da campanha e depois dela, nos damos muito bem, ao ponto de participar, à convite do próprio, pessoalmente, das peladas de futebol de salão na quadra do recém inaugurado Quartel de Polícia.
PROMESSAS E PROMESSAS!
Enfim, chega o dia do tão esperado “Comício da Saudade” em que o doutor Chiquinho promete anunciar os nomes dos autores e mandantes das mortes de Carlindo e, consequentemente, de Aníbal também: segunda-feira, 27 de outubro.
Portanto, comício que promete esquentar mais ainda a campanha política, isto porque é quase certa a presença, finalmente, do senador Dinarte.
Na noite anterior, o ex-deputado Manoel Torres de Araújo, candidato da Arena Verde, realiza o seu. A campanha está pau a pau, como se diz no popular, quando um embate de qualquer natureza revela um empate técnico.
Ou mais arrochada do que tampa de furico, como define Vonarte de Brito, o destemperado Cascão, filho do brilhante advogado Agosti nho Santiago de Medeiros Brito, que disputa a Prefeitura de São João do Sabugi, pela Arena Vermelha, contra o dentista Joaquim de Assis Úrsula, bacurau do pé roxo.
Alías, como Torres não programa nenhum ato público para a última segunda-feira de outubro,
pede-me para ir comandar um comício em São João. Lá fomos nós, eu, Chico Cambitinha, Doidelo de Gaspar e Biscoito.
Logo na entrada da cidade, início da tarde, o primeiro incidente. O deputado Diniz Câmara chega de Mossoró e nos entrega várias bombas de fabricação caseira.
- Elas são potentes, uma só quase bota abaixo a área da casa do deputado Vingt Rosado ( adversário dele no Oeste).
Exatamente: antes de entrarmos no perímetro urbano, Cambitinha detona uma delas sob as copas de um velho cajueiro. O impacto é violento, as folhas secas das árvores se despregam, uma nuvem de fumaça se mistura ao redemoinho provocado pela explosão.
Muita gente acorre à outra margem do Sabugi. Na lateral da Igreja Matriz, outra bomba é detonada, coincidentemente, no momento em que a camioneta do comerciante caicoense Bastos Viola, passa pelo local.
O veículo sofre o forte impacto, balança, seus ocupantes ( pela buchos moradores em Caicó) gritam, dona Lili Queiroga da Nóbrega sente-se mal. Mesmo assim, muita gente aplaude a nossa entrada triunfal na cidade.
Providencialmente, chega Joaquim Úrsula, olhos esbugalhados, voz trêmula, pálido e impede a nossa a nossa passagem:
- Pelo amor de Deus, vocês querem acabar comigo?
Os quatro ocupantes do carro de som bebem mais do que raposa em noite de lua cheia. A cada volta que pela cidade, parada obrigatória no bar do coreto da Pracinha. Os adversários de Joaquim nos olham de longe, com cara de poucos amigos, mas os correligionários nos saudavam como heróis.
Final de tarde, fomos ao lanche na casa da candidata a vice Prefeita Dona Nicinha. Mal entramos, um popular bufando:
- Quem são Caboré e Chico Cambitinha, aí?
Apresentei-me:
- Pronto, sou eu. O que deseja?
- Vim avisar que os filhos de finado Aníbal estão à procura de vocês?
- Pra quê?
- Eles disseram que vão lhe pegar!
Mirabô Pereira, nosso vizinho, intervém:
- Deve ser boato. Vamos conversar com eles.
Mal saímos da casa de Nicinha, uma camioneta azul vem em nossa direção, Mirabô toma à frente:
- O que é que há, meninada?
Nilzon, sorriso largo:
- Viemos buscar Caboré e Cambitinha para tomarmos cerveja ali na Praça!
Bebemos até o início do comício, que contou com a presença de, entre outros, Diniz Câmara, o deputado federal Agenor Maria e Henrique Eduardo Alves, filho do também deputado Aluisio Alves, licenciado, em sua primeira participação em uma campanha política no Interior.
Quanto ao “episódio” com Nilzon e Anifrâncio, que se fazem acompanhar do jovem Sevi (Severiano Firmino Filho) é desmontado, pois trata-se apenas de mais uma farsa montada pelos nossos adversários políticos em Caicó.
Aliás, a trinca, que havia abolira o luto, logo pela manhã, livra-se da turbulência da cidade para evitar o chamado “Comício da Saudade”, realizado no local da tragédia, em frente ao Caicó Esporte Clube, exatamente, há um ano.
Na realidade, muita exploração política, cuja campanha, termina sem os dinartistas anunciarem os nomes dos culpados pelos crimes que abalaram a região.
O final da campanha política de 1968 é emocionante, cada vez mais as partes litigantes envolvidas com ardor e determinação, principalmente, depois que o senador Dinarte Mariz atende os pedidos de seus amigos e correligionários e entra para valer.
O governador Walfredo Gurgel, partidário de Manoel Torres, vem poucas vezes à cidade, mesmo assim, fica distante do palanque. Jessé Freire, Aluizio Bezerra, Teodorico Bezerra e outros menos votados participam da etapa final.
Aluizio Alves, nem pensar, porque a rejeição entre os dinartistas que apóiam “Seu Mané” é grande. Mas, Agenor Maria, agora engajado ao bloco bacurau, por ter assumido a vaga de AA, licenciado, marca presença, mas, sem Henrique.
Aluizio Alves, aliás, está fazendo das tripas coração para o “Touro” não comer o “Capim” em Mossoró. Lá também é briga de cachorro grande, mas o “cigano feiticeiro” consegue reverter o quadro, com a vitória surpreendente de Antonio Rodrigues de Carvalho sobre Vingt Um Rosado.
Pouco mais de 70 votos.
Véspera e dia da cartada final, uma guerra de bandeiras, galhos verdes, de participação popular. A contagem dos votos, iniciada na manhã do sábado, mais emocionante ainda. Manoel Torres sai frente e lidera a apuração até as 18 horas, quando doutor Chiquinho vira com três votos á frente. A coincidência da diferença no placar com o apelido do candidato faz com que seus correligionários descarreguem no burro.
É na cabeça e muitos donos de banca balançam!
A euforia toma conta dos partidários de doutor Chiquinho, enquanto o baixa astral silencia os pela buchos que haviam passado o dia comemorando antecipadamente a vitória. Quadro de contraste que se modifica a todo instante.
Manhã seguinte, reiniciada a apuração, Manoel Torres vira o jogo e bota dianteira. Só faltam as urnas dos distritos de Palma e Lajinhas e, é, exatamente neste último, que a maioria de cerca de trezentos votos pró-Torres se escafede: Burra Cega vira novamente e ganha a eleição por 72 votos.
Como é triste ser derrotado nas urnas. Ruim não é, simplesmente, perder uma eleição, pior são as gozações dos adversários, essas sim, parecem não ter fim…
Saudades, 68!
EM BUSCA DA VERDADE
- Ei, Zé, quem lhe deu essa bicicleta nova?
O jovem ciclista não se cansa de responder, com a maior naturalidade:
- Foi Antonio Letreiro!
Essas cenas se repetem diariamente e a toda hora em Icó, importante cidade do interior do Ceará. O ano é l969, Zé é o bancário e radio amador José Salles, e Antonio Letreiro é o mais famoso e procurado pistoleiro do Nordeste.
Mas, como tudo tem seu dia e hora, o matador profissional é preso pelos policiais cearenses e recambiado para a prisão em Icó. Zé é caicoense, coincidentemente, da mesma cidade onde os irmãos Letreiro – Edmar e José Maria Nunes Leitão – mataram a pouco mais de dois anos o deputado estadual Carlindo de Souza Dantas e o empresário Aníbal da Cunha Macedo.
Sabe-se, também, de sua participação direta na morte, por encomenda, também em l967, de outro parlamentar, Manoel Telles, deputado estadual em Sergipe. Ele e o irmão Zé Maria, morto um ano depois por policiais rodoviários federais na famosa Rio-Bahia, estrada federal que liga o Nordeste à região Sul.
Por isso, as atenções da imprensa nordestina estão focadas para o Icó. Principalmente, depois que o macanuto José Salles transmitiu o fato através de seu rádio amador. O rádio amador já, é, por natureza e ofício, o grande comunicador que alcança áreas quase inatingíveis pelo rádio comum, principalmente nos grotões nordestinos.
Rápido e de informação precisa. Por isso, o jornal O Povo, um dos principais do Ceará, delega a José Salles a função de correspondente. E toda a região toma conhecimento da prisão do temível matador de gente.
A notícia chega rápido a Caicó e Nilzon viaja ao interior cearense em busca da verdade sobre a morte do pai e do amigo. Em sua companhia, um agente federal. Ambos falam com o pistoleiro e este não se faz de rogado:
- Foi procurado em Quixaba por Edmilson Queiroz para fazer um serviço em Caicó, a eliminação do doutor Carlindo. Foi a Caicó com o irmão Edmilson para se encontrar com o médico Pedro Militão, mas, não o encontrando, regressou para a Paraíba e dirigiu-se para a fazenda de Chico Paulino, onde costumava ficar.
… Sessenta dias depois, foi procurado de novo por Edmilson Queiroz, que dirigia a Rural Willys de Pedro Militão, dirigindo-se a Patos, foi para a casa de Bastos Qeiroz, onde lá se encontrou, além do dono da casa, com Pedro Militão e o sargento Mário.
… Ficou acertado que o serviço seria feito em Natal. O pagamento seria feito por Bastos Queiroz. Num certo dia, foram a Natal, ele, letreiro, Pedro Militão, o motorista e o sargento Mário, chegando na capital por volta das dez horas.
… No grande Ponto, em Natal, mostraram o doutor Carlindo a ele, que achou o local impróprio para o serviço. Letreiro, então , volta a Fortaleza, de ônibus, permanecendo ali durante uma semana, retornando depois à fazenda de Chico Paulino…
…Alguns dias depois, recebeu a visita de Edmilson aperreado, perguntou pela execução, tendo respondido que não tinha dado cerrto, porque dois mil cruzeiros novos era uma quantia pouca …
…Houve novo encontro em patos, na casa de Bastos Queiroz, pai do doutor Onaldo. Dez depois, ele se encontra na fazenda de Levy Olímpio com o seu irmão Zé Maria, recém chegado da Bahia.
…Na Quixaba, se encontra de novo com o doutor Pedro Militão, o motorista e o doutor Osvaldo Lobo. Letreiro cobrou 3 mil cruzeiros novos para praticar o crime, tendo o doutor Osvaldo Lobo prometido que ajudaria na fuga.
…Seria a pé até a sua fazenda em Serra Negra do Norte ou a cavalo, e passariam em Bastos Queiroz para pegar o dinheiro.
…Foram para Caicó e fizeram o serviço, com o seu irmão Zé Maria atirando nos dois enquanto ele, Letreiro, encostado em um poste, passou a atirar para cima para espantar o pessoal…
…Em seguida, ele e Zé Maria seguiram a pé para a fazenda do doutor Osvaldo Lobo. O gerente. Ao avistar os dois, e entregar os cavalos aos pistoleiros, é acometido de uma grande diarréia…
Quanto ao conterrâneo José Salles, que é conhecido por Criança, devido ao tamanho, quase um metro e noventa de altura, justifica:
- Eu respondo que foi Antonio Letreiro que me deu a bicicleta porque, na realidade, comprei com o dinheiro que ganhei do jornal O Povo.
Em relação a Nilzon Macedo, retorna a Caicó, cheio de informações precisas e vira alvo dos envolvidos na chacina do Caicó Esporte Clube.
Uma viagem que o leva a morte, uma morte anunciada desde que chama para si as responsabilidades da descoberta dos crimes.
MEIA NOVE: NÃO DÁ PRA ESQUECER!
A população tranqüila, hospitaleira, ordeira e pacata de quatro anos atrás mantém sua postura, porém, a cidade tranqüila de antigamente já era. Muita coisa vem acontecendo e os burburinhos no pé do ouvido prenuncia nuvens pretas e carregadas, sujeitas às tempestades, trovões e relâmpagos de forte intensidade.
A versão cabocla indica que ainda há mais alguém no Álamo tupiniquim – e não se trata de nenhum Dave Crock nem tampouco Jimmy Bowie , por sinal, pilantras da pior espécie na vida real do Velho Oeste americano e repaginados como mocinhos e heróis nas telas de cinema.
Ficção e realidade cercam a película sobre os lendários personagens de mais de um século atrás , agora exibida nos cinemas locais, mas os protagonistas e personagens dessa fita, em preto e branco, são e moram aqui.
Quase vizi nhos, parede e meia um do outro. Olho no olho, par a passo, cerca pimenteira, de semblante tenso, clima, dias, horas, minutos e segundos, meticulosamente, contados e seguidos.
- Bang! Bang! Bang!
A PASSADA FINAL
Pedro Militão volta de mais uma jornada de trabalho na vizinha São João do Sabugi como faz toda a segunda-feira. Estaciona seu veículo em frente Instituto de Educação onde é professor de Ciências no curso Pedagógico, de formação de professores.
Olha para um lado, para o outro, semblante bem mais tenso do que o daquela tarde, cinco anos antes, crepuscular, sol do poente encoberto pelas nuvens e emoldurado por um arco-íris que rasga os céus de ponta a ponta.
Os tempos são outros.
Desce do carro, pisa firme, silente, prescutador. Uma segura a pasta preta, a outra, livre, leve e solta. Atravessa a rua, sobe os batentes do imenso prédio, contorna o corredor, cumprimenta algumas pessoas que, talvez, já antevendo reboliço dos grandes, se dispersam, serelepes, passos largos.
“Seguro morreu de velho” – arriscam-se, mesmo em mutismo absoluto, silêncio sepulcral.
Nesse ambiente e clima tensos, o médico e professor irrompe em direção ao acesso primeiro andar, os alunos já esperando pela aula.
De pé esquerdo, inicia a subida da rampa, a primeira passada, a segunda, a terceira e, de repente…
- Bang! Bang! Bang!
Correria geral. De alunos, professores, servidores do educandário e, principalmente, do executor. Não dá tempo sequer do alvo mexer-se, pensar em algo. Ação rápida e segura. Também mal dá tempo do autor dos disparos se evadir do local, a multidão se aglomera em torno do corpo, que nem se mexe mais.
Era o fim de uma caminhada para a última aula que não acontece. Apenas, um corpo estendido no chão.
Confusão generalizada, olhares se cruzam, reveladores, incriminatórios, ninguém sabe, ninguém viu, é a lei do silêncio que ,em cenas como essas, já imperava há muito tempo.
Apenas, ouve-se o espocar dos tiros, depois, o cheiro de enxofre no ar!
Eu acabava de chegar em casa para o almoço, depois de cumprir expediente no banco estadual, e escutei os tiros. A princípio, penso tratar-se das comemorações dos torcedores do clube vencedor do campeonato local, decidido no domingo. De repente, os gritos, choros e lamentações desesperados vindos do meio da rua:
- Pelas caridades, acabaram de matar meu irmão!
É Iara, a nossa vizinha da esquerda, filha do velho Pedro Militão, portanto, irmão do outro Pedro, o médico acusado de envolvimento em crimes recentes.
Correio da mal notícia, saio de casa e deparo-me com a aglomeração de pessoas comovidas diante da vizinha em transe: Jaime Calado, Rui Pereira, João Maia, Nego Tião, Assis Brilhante, Paulo Pires, Otávio, todos da casa do estudante, nossa vizinha da direita.
- Otávio viu quem foi, mas não diz. Sepela de medo!
Pobre Otávio. Parecia faltar-lhe terra nos pés, engasgado pela goela e entupido pelas narinas. Quase apoplexo.
Um farrapo humano, mal conseguia murmurar, concatenar coisa com coisa.
Pergunto-lhe:
- Se eu acertar na mosca você revela?
O infeliz balança a cabeça pra baixo, feito lagartixa.
Tiro infalível, de misericódia:
- Foi nosso amigo que mora ali detrás?
Otávio não mais repete a brobó. Renasce como uma Fênix, corajosa, reveladora:
- Exatamente!
E a cidade em peso, em minutos, acorre ao local de mais um crime, agora em plena luz do dia. O invés de um clube, o local é outro: uma escola!
Ninguém viu, ninguém diz nada. Mas, sem essa de que multidão não pensa, apenas reage.
Ora, se o domínio público é sabido, sabe mais do que as autoridades…Para quê? Alguma dúvida?
- Nerosa, setencia o irmão de Abias.


Você está de parabéns. Só quem como você viveu e conhece a história da cidade para relatar os fatos de forma tão precisa. Deve dar continuidade e escrever mais sobre a história de Caicó. Tem fatos que você conhece e que estão esquecidos.
5-10-2009 @ 16:12
Super interessante contar esta saga da história caicoense e importante é divulga-la, sei que VC sabe e a família esta aí para maiores detalhes, continue Caboré e outra depois escreva a história do famoso Cícero de laura pesonagem até folcloríco do nosso caicó e que com certeza vai interressar a muita gente.obrigado
10-10-2009 @ 22:49
Parabéns Caboré pela matéria sobre Caicó de ontem,estou acompanhando está matéria do começo e gostaria de saber se você não vai colocar nenhuma foto destes personagens desta história,que para muitas pessoas é desconhecida,mas faz parte de todo o passado de nossa cidade.Vlw Bicho
13-10-2009 @ 20:13
Caro amigo caboré,queria te dar os parabéns por esta matéria que engrandece os nossos conhecimentos sobre os fatos acontecidos em uma Caicó do passado.Sou da cidade de Pau dos Ferros porém minha é de Jardim de piranhas, Valdete Medeiros ela é médica e tinha me contado essa história envolvendo estas tragédias, tenho uma tia que mora í em Caicó, Valdira Medeiros, trabalha muitos anos com Sr. Emídio Germando.Amigo um abraço e parabéns novamente.
3-11-2009 @ 13:03
Quero falar para Moisés Augusto Medeiros, filho de Valdete e neto de Tio Joel Elpidio de Medeiros. Somos parente, o seu avô era uma pessoa legal. Muito amigo lá de casa, se conversar com sua mãe ela diz mais. Esperou nascer três meninos seguidos para nascer uma menina e ele colocar o nome de mamãe “ZULEIDE”, dizia que era uma homenagem a comadre querida. Na vespera do Natal de 1969, ele esteve lá em casa em Caicó, Valdira queria que ele ficasse em Caicó para passar o Natal. Ele nunca tinha negado um pedido de Papai e de mamãe que estava de resguardo e pediram a ele para ficar. Ele foi em busca da morte brutal e traiçoeira na noite em São Fernando. O meu e-mail é: hieronidesaraujofernandes@hotmail.com. Manda uma mensagem. Fico feliz quando encontro descendente de Tio Joel.
10-11-2009 @ 07:53
Desculpe o ano foi 1959.
10-11-2009 @ 07:55
Voce, com brilhantísmo e inteligência me leva àqueles idos que até hoje trago na memória. Primeiro, por que indiretamente conviví com os fatos; segundo, por que assistí algumas cenas. Por precisar ganhar alguns trocados, dirigí um Jeep de um político e neste carro conduzia um revolver 22(bala u) que foi emprestado a um desses envolvidos. Cap. Durval apreendeu essa arma. Quando do assassinato de Carlindo e Aníbal, me escondí em baixo de um carro alí estacionado. No dia e hora da morte de Pedro Militão, estava eu embaixo de algumas algarobas, próximo ao atirador, pois além de estudar no antigo Inst. de Educação de Caicó, eu era colega de classe do irmão deste. Portanto, sempre que entro no seu Blog, imediatamente leio A SÍDROME DA CIDADE GRANDE, pois esta me traz ao meu pensamento, as cenas que não queria ter assistido. Meus parabens pela sua capacidade.
17-12-2009 @ 14:33
Caboré, eu sou professor e sempre relato esses fatos contados por você que viveu essa época em que se derramou muito sangue na nossa querida Caicó… Parabéns caboré… Caboré gostaria de saber se você tem alguma narrativa do velho carcará que foi jogador de futebol, se tiver coloca no blog.
18-12-2009 @ 23:50
Caro Caboré,
Desde a minha infância até a data em que o meu saudoso pai José Targino (Zé Cambota) partiu para a vida eterna muito ouvia ele contar aos relatos deste passado histórico da nossa cidade Caicó, foi Zé Cambota por muitos anos Choffer do Sr Anibal Macedo, meu pai fazia muitas menções elogiosas a familia do Sr Anibal e ao mesmo, como docente em exercicio desta cidade admiro bastante a sua obra, é uma literatura local, e que neste texto há uma história que não pode ser esquecida, mas sim, esta deve ser base para orientação da violencia e da política em Caicó. Parabéns pela obra.
Prof. Rômulo Targino dos Santos
Centro Educacional José Augusto
29-12-2009 @ 15:01
Lembro-me de tudo que você relatou. Só uma coisa: tinha dois caborés em Caicò? um era jogador de futebol? Se for se referir ao Carcará quero que se refira também aos jkogadores:Seriboga, Chagas, Bajoginho, Zé Gonçálo e tantos outros. Um abração, Caboré.
29-12-2009 @ 22:02
Falando de Cap. Durval, este tinha uma filha que se chamava: Medalha. Tinha um tropeiro na cidade possuia vário jumentos, entre os quais havia uma jumenta de mesmo nome e enquanto ele tangia os animais ele gritava: olhe o asseiro da rua medalha e em seguida dava um estampido com chicote…há se vocês acharem que estou mentindo prodcure saber de Almir Pereira de Oliveira(f treinador do Corinthians, porteiro do clube , sapateiro que consertavam as chuteiras dos jogadores , a mulher dele Maria Pereira, filha de Maria Eudócia Pereira, lavava o uniforme do clube,tambem.) O Almir, nas horas vagas era tropeiro, também, por isso boto fé na palavra dele. “Olhe o asseiro da rua, Medalha”. O Cap. Durval ficaram uma fera, cara. Um abraço, Ildefonso.
29-12-2009 @ 23:50
Por que tanto tempo aguardando “moderação” se em outros blogs de Caicó, já obtive respostas…Algum problemas ?
30-12-2009 @ 19:18
Tá todo mundo de Férias…Saudades do Blog do Xerife…
30-12-2009 @ 19:21
Tô querendo demais, sô.Esqueci que tá todo mundo de férias…Foi mal, sô. Saudações, Cruzeirenses..
31-12-2009 @ 18:47
Caboré, tá de férias, Sô. Kd meu retorno. Um abraço, Ildefonso Salles.
6-01-2010 @ 19:11
PAROU PORQUÊ?
27-01-2010 @ 15:43