Boca do lixo vira DVD de luxo

A produção da Boca do Lixo, em São Paulo, ganha edição de luxo e está sendo distribuída em todo o país. Trata-se da coleção Cinema Marginal Brasileiro, idealizada pelo cineasta paulista Eugênio Puppo, que reúne 40 filmes do chamado Cinema Marginal, produzidos nos anos de 1960 e 1970. A coleção propõe uma reflexão sobre a cinematografia brasileira, apresentando em sua maioria obras pouco assistidas, principalmente pelas novas gerações.

ArquivoDe São miguel do gostoso, onde roda um filme sobre a comunidade, o cineasta Eugênio Puppo anuncia lançamento de novos filmes da  coleção “Cinema Marginal Brasileiro”De São miguel do gostoso, onde roda um filme sobre a comunidade, o cineasta Eugênio Puppo anuncia lançamento de novos filmes da coleção “Cinema Marginal Brasileiro”

De São Miguel do Gostoso, município do litoral norte do Estado, onde está sendo rodado o documentário que leva o nome da cidade, Eugênio Puppo fala ao VIVER por telefone e apresenta a coleção Cinema Marginal Brasileiro. A coleção é resultado de uma parceria estabelecida entre a Lume Filmes e a Heco Produções. “Ao todo são 12 DVDs, que somam 40 filmes entre curtas, médias e longas metragem, que começaram a ser lançados no segundo semestre de 2009. Em março deste ano lançaremos os volumes 5 e 6”, detalhou Puppo.

Cinema Marginal Brasileiro foi o nome dado aos filmes produzidos no período mais crítico da ditadura militar e que, também por esta razão, não ganharam financiamento das agências de fomento à cinematografia da época. Sem financiamento, os cineastas encontravam dificuldades em fazer parte do circuito oficial de exibição de filmes. Estas produções, além de tratarem de temas políticos de forma escrachada, possuíam uma linguagem diferenciada e de caráter experimentalista. Deste período nasceram produções autorais, que como o próprio nome sugere, aproxima-se do autor. “À meia-noite levarei sua alma, de José Mojica Marins, de 1964, inaugura o cinema de autor, que é um cinema mais visceral”, explica Puppo.

A maior parte deste chamado Cinema Marginal era produzido na Boca do Lixo, logradouro situado próximo ao centro de São Paulo. Lá encontravam-se produtoras e distribuidoras de cinema, que finalizavam a maior parte dos filmes de cineastas de todo o país. Durante a década de 1970, foram produzidos no Brasil aproximadamente oitenta filmes por ano e cerca de 40% deles saíram da Boca. No depoimento dado no Portal Brasileiro de Cinema (www.heco.com.br), Puppo acrescenta que produzir a toque de caixa era a regra dos filmes da Boca do Lixo. “Filmes de cangaço, de terror, de sexo explícito, policiais, experimentais, dramas e pornochanchadas fizeram uma ponte direta com um público popular que, não por acaso, lotava as salas em busca de entretenimento” escreveu Puppo no portal citado.

Eugênio Puppo iniciou em 1999 uma pesquisa sobre o Cinema Marginal e, naquele ano, tinha em mãos de 4 a 5 filmes produzidos em São Paulo. Ao avançar com sua pesquisa e incluir as obras de autores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, todos finalizados na Boca, Eugênio aumentou seu acervo e, a partir daquele momento realizou palestras, cursos e seminários com o objetivo de divulgar este importante movimento do cinema brasileiro.

Acervo e edição de luxo

Após este intenso trabalho, Eugênio decidiu divulgar este acervo, organizando-o em uma coleção de DVDs. Os DVDs trazem além dos filmes da Boca, um encarte exclusivo para cada volume lançado, além de entrevistas com os cineastas. “Esta é uma edição de luxo. Fiz questão de colocar nos encartes informações sobre o movimento tão pouco divulgado”, falou Puppo. “Não sou comerciante de DVDs, sou pesquisador. Minha intenção em produzir este material é ter um retorno do público e uma divulgação do Cinema Marginal pela mídia”, observou Eugênio.

Os quatro primeiros lançamentos trouxeram clássicos de Andrea Tonacci, Rogério Sganzerla, Elyseu Visconti e André Luiz Oliveira. Farão parte das próximas edições a serem lançadas Carlos Reichenbach, José Agrippino de Paula, João Silvério Trevisan, Júlio Bressane, Geraldo Veloso, Jairo Ferreira, João Callegaro, Ozualdo Candeias entre outros.

Para Eugênio Puppo a importância de todo este trabalho é a de resgatar esse movimento do cinema nacional, muito pouco analisado e comentado e dar a oportunidade de acesso as várias gerações que não tiveram chance de ver estes filmes, mesmo no período em que foram produzidos.

Cinema hoje

Não muito diferente das décadas anteriores o cinema brasileiro conta com um circuito oficial de exibição de filmes e um não oficial. O que os distingue é que esta exibição não oficial tem sido largamente acessada. Isso se deve a facilidade de produção de vídeos digitais a partir de mídias baratas como câmeras fotográficas e de celular, bem como a possibilidade de veiculação, já que a internet tem se tornado um excelente meio físico para divulgação desses trabalhos.

Quando feito um paralelo entre o que foi o cinema brasileiro nos anos de 1960 e 1970 e o que é hoje, provavelmente surgirá quem diga que a produção de vídeos veiculados na Internet é uma nova versão do Cinema Marginal Brasileiro. “Não é porque um filme é lançado na Internet, que ele é considerado Marginal, é preciso ter uma linguagem específica”, esclarece Eugênio Puppo. “Hoje o cinema está se estandardizando  e se aproximando cada vez mais da TV. Trata-se de um cinema de puro entretenimento. Se os vídeos que circulam na internet têm esta mesma intenção, o de se aproximar da TV, não podem ser considerados Marginais”, completa Eugênio Puppo.

Outras informações sobre o movimento Cinema Marginal Brasileiro no www.heco.com.br

São Miguel do Gostoso

Eugênio Puppo tem uma longa história junto à cinematografia brasileira. Atualmente o cineasta encontra-se em São Miguel do Gostoso gravando o longa-metragem que terá 2 horas de duração e retrata o desafio da população do município, que aos poucos deixa de ser uma pacata vila de pescadores para se tornar um paraíso turístico, discutindo o jogo de forças entre o crescimento econômico e a manutenção da identidade local. “Estamos concluindo as filmagens e em seguida voltaremos para São Paulo, onde faremos a finalização do filme. A previsão é de que faremos o lançamento em janeiro de 2011”, conclui Puppo.

Serviço :
serão vendidos (os dvds da coleção) pelo site www.lumefilmes.com.br

 

Fonte: Tribuna do Norte

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